Tawan

“Dr. Tawan, Dr. Tawan! Você sabe o que está acontecendo com o Dr. Nadia? Ele tem estado triste e quieto esses últimos dois dias.”

O mesmo barista me pergunta quando eu pego meu café.

Se você quer saber pergunte diretamente a ele. Por que está perguntando pra mim? Eu olho pra trás, Nadia está sentado na mesa de cabeça baixa. Certo, ele parece mesmo triste. Se passaram apenas dois dias desde que seu coração foi partido, é impossível ficar alegre.

“Ele está de coração partido.”

Eu dou a ele uma resposta curta. Não porque eu sou contra falar sobre assuntos pessoais dos meus amigos, eu só estou com preguiça. E como eu te disse, nessa hora da manhã meu cérebro ainda não acordou, então eu só consigo me comunicar com frases curtas.

“Ah, coração partido, é isso?”

O barista assente após constatar. O nome no crachá “Mayom” chama minha atenção. Nossa, é estranho. Um homem chamado Mayom?

Espera, o que?… eu nunca vi esse barista usando crachá antes. De onde veio isso?

“Hey, Senhor. Porque você está usando um crachá hoje? Normalmente não usa.”

“Aah, é a nova política da companhia. Assim nossos clientes podem conhecer melhor o nome dos baristas, e facilmente reconhecer o seu favorito. Nos vemos regularmente, é melhor para pegar familiaridade.”

“Seu nome, se lê Ma-yom?”

“Sim, Doutor. Meu nome é Ma-yom. Ah, espere um minuto, Doutor.” Ele se vira para colocar um pedaço de cookie assado de aveia e passas em um prato, e depois me entrega. “Entrega para o Dr. Nadia, por favor. É por minha conta, uma consolação para o coração partido.” 

Eu pisco meus olhos pra ele.

“Ué, por que você mesmo não entrega?”

“Aai, eu não posso, Doutor. Eu preciso preparar os pedidos dos outros clientes. Eu estou tão ocupado agora.”

Eu olho ao redor da loja. Só tem eu no balcão e ninguém na fila para fazer pedidos. Todos os clientes já estão sentados nas mesas.

“Esperto hein, Sr. Mayom!” Eu sorrio e continuo falando com uma voz sábia e desonesta. “Hey, se você gosta dele, faça alguma coisa. Não fique confiando em mim como intermediário. Nós somos adultos, não adolescentes com uma paixão bobinha. Dizem que um coração partido é fácil de roubar. Você não quer tentar?”

Ele balança a cabeça e insiste que eu pegue o prato.

“É melhor não, Doutor. Eu vou ser um cavalheiro e não um oportunista.”

“Okay, é sua escolha. Não reclame depois por perder uma oportunidade.”

Eu pego o cookie. Na verdade, não foi isso que eu quis dizer. Quando as pessoas se apaixonam e querem se declarar, qualquer dia dará certo. Não precisa aproveitar uma chance quando a pessoa estiver de coração partido.

Eu coloquei o prato com o cookie em cima da mesa, ao lado do Latte com bastante açúcar pedido pelo meu melhor amigo.

“Aqui, seu maldito café. E também, cookies assados. O Sr. Mayom mandou como consolo por estar de coração partido.”

Nadia ergue os olhos do celular.

“Espere, quem é Mayom?”

“É o Sr. Barista, bobinho. O nome dele é Mayom.”

“Ah, é mesmo? Eu não sabia.”

Nadia engole metade de seu café em um gole, como se estivesse matando sua sede bebendo água. Eu tomo um gole do meu café e está quente pra caramba. Seu copo deve estar também. Como esse meu amigo vadio consegue beber o café nessa pressa?

“Eu não sabia também. Eu só vi seu crachá hoje. Ele disse que a empresa tem uma nova política de usar o crachá.” Eu continuo beber meu café, notando que Nadia torna sua atenção de volta para algo em seu celular. “O que você está lendo? Preste atenção em mim.”

Ao invés de me responder, Nadia me mostra a tela de seu celular.

“O que???… Moto Taxistas Bonitos, Por Favor Compartilhem.”

A fan page do Facebook no celular de Nadia mostra várias fotos de pilotos de moto taxi. Algumas são de longe, tipo foto de paparazzi, e outras são bem de perto. Em algumas fotos, os rapazes posam voluntariamente e outras são selfies. Eu devolvo celular para o Nadia.

“O que diabos é essa página?”

“Duh, não tá vendo? Se chama Moto Taxistas Bonitos, Por Favor Compartilhem. Uma compilação de caras que são moto taxistas e bonitos ao redor de Bangkok, pra todo mundo dar uma olhada. Alguns deles são tão gostosos que têm até fã clube.”

“Sim, eu vi isso. Mas eu não estou entendendo por que você está vendo isso.”

“Olha aqui, esse cara não parece familiar?” Nadia me mostra de novo seu celular. Dessa vez era uma postagem do administrador da página. Embaixo da foto, a legenda diz “Moto taxista jovem e gato no final da Avenida Phahon (Aliás, não vou dar mais pistas pra vocês pessoal, pois esse já é meu, eiei). Perguntei pelas redondezas, e o nome dele é Mork.”

Nessa foto, está Mork, o Sr. Moto taxista está estacionado na rua lateral que leva ao condomínio do meu namorado. 

“Ei… é o Mork nessa foto.” Eu devolvo seu celular.

“Siiim, ele mesmo. Esse garoto é bonito. E legal também. E alto.”

Eu franzo a testa para o meu melhor amigo.

“Espera, o que? Nadia, você estava bêbado, não tava? Como você consegue lembrar da cara dele? Pelo que eu me lembre, você ficou desacordado e dormiu, deixou Mork e eu carregar você no caminho até o dormitório, por quase um quilometro. Como você reconheceu o rosto dele?”

Nadia deu de ombro, sorrindo maliciosamente. “Siiiim eu estava bêbado, mas não estava dormindo. Bom, de repente aparece um cara bonitão e me deixa apoiar tão próximo dele, se eu acordasse e andasse por conta própria, a oportunidade seria desperdiçada, você sabe né?”

Além de terminar sua última frase em um tom antipático, foi também seguido por uma gargalhada. Isso me fez revirar os olhos. Onde está o Nadia melancólico que estava sofrendo por um coração partido? Isso significa que todo esse tempo que ele estava de cabeça baixa, foi só pra ficar olhando homens bonitos?

“Ei!” eu não sei onde Nadia quer chegar com isso. Ainda.

“Você sabe se o Sr. Mork já está saindo com alguém?”

“Por que você quer saber?” eu pergunto de volta.

“Boomm, se ele estiver solteiro, Eu vou cantar uma música pra ele e dizer ‘Hey a gente acabou de se conhecer e isso é loucura, mas aqui está meu número, então me ligue talvez. E todos os outros garotos ficam tentando me conquistar, mas aqui está meu número, então me ligue talvez.’”

Ele não só canta Call me maybe, como também faz uma cara engraçada e paqueradora enquanto faz a dança dessa música.

“Seu tolo…” eu olho para ele e lanço um olhar de pena. “Mork é mais novo que nós. Talvez ele nem saiba que esse álbum foi lançado. Ele só vai ficar confuso e se perguntar que música doida que essa maricona velha tá cantando!”

Nadia me encara “Noooosssa, Maricona velha! Tá certo então! Você é um passivinho pequenininho e fofinho. Maricona anã! Deixa eu te dizer uma coisa. Aquele dia, que você me carregou, meus ombros estavam me matando. O apoio de um lado era tão alto que eu estava quase levantando o pé, enquanto o outro lado estava tão baixo que minha mão estava quase encostando no chão.”

“Okay, da próxima vez eu não vou te resgatar quando você estiver caindo de bêbado de novo.”

“Awwnn, tadinho. Eu tava brincando!” Nadia me provoca de brincadeira com um afago nas costas e nos ombros. Afff… esse meu melhor amigo vadio. “Aqui, pegue um pouco dos cookies da reconciliação para a gente fazer as pazes. Nós estamos de bem, né maninho?” 

Eu sorrio e balanço minha cabeça. “Nãooo, você tá doido? O Sr.Mayom deu isso pra você, não é para dividir entre a gente. Apenas coma, não machuque os sentimentos dele.”

Então, eu giro minha cabeça para olhar para o barista, que agora está fazendo café para um cliente. A máquina de moer grãos triturando o café é a música de fundo.

“Nadia… você não acha que ele está caidinho por você?”

Eu pergunto discretamente, mesmo que não seja necessário.

“Não, ele é comerciante, tem que ser legal com todo mundo, não é?”

Nadia dá uma mordida no cookie. “Nossa, está saboroso! Eu deveria comer isso de novo algum dia.”

“Sério? Você acha que ele é legal com todo mundo? Eu não acho. Ele parece…” Olho na direção do barista e depois olho de volta para meu amigo que está sentado na minha frente. “Ele parece excepcionalmente carinhoso com você.”

Nadia tira outra mordida no seu cookie. “Você não está lendo muito? Ei, é compreensível, você está apaixonado agora. Tudo ao seu redor parece bonito e feliz, doce e romântico em rosa, porque o amor está no ar. Mas acredite, ele não está caidinho por mim, Tawan. Eu tenho certeza disso.” Depois disso, ele deu a última mordida terminando o cookie todo… em três mordidas, que apetite desgraçado ele tem.

“Não tenha tanta certeza, Nadia. Às vezes está interpretando errado.”

Eu dou o último gole no meu café.

Ele dá de ombros. “Okay, se ele gosta de mim e quer me conquistar, ele tem que deixar isso mais claro, não só fazer movimentos vagos que me deixam em dúvida. Isso é muito ambíguo, não gosto disso.”

“Aww, às vezes ele é muito tímido. Nem todo mundo é cara de pau que nem você.”

É minha vez de fazer um ponto, e eu aproveito. Essa manhã eu senti que ele fez muitas observações sarcásticas sobre mim, então eu tenho que devolver se não ele vai pensar que sou um alvo fácil.

“Então deixa eu te perguntar, Tawan.” Nadia levanta o seu copo para finalizar o último gole no seu café. “Se tem alguém que não tem coragem suficiente para demostrar que o ama, você escolheria essa pessoa para ser seu companheiro pro resto da vida?” Ele então relaxa as costas no encosto da cadeira, levantando uma sobrancelha de forma triunfante.

“Se alguém está apaixonado por mim, mas não tem coragem de deixar isso claro, fazendo eu me sentir confuso e precisando perguntar para várias pessoas pra saber se ele gosta ou não de mim, isso é ser covarde. Você quer mesmo esse tipo de pessoa, que não tem coragem nem de te livrar das dúvidas…?”

Nadia descruza os braços e aperta a ponta do meu nariz.

“… para ser seu parceiro para o resto da vida? Use o seu cérebro, Tawan.”

“Aaaaaiii, isso dói, vadio! Por que você fica apertando meu nariz?”

Eu massageio a ponta do meu nariz algumas vezes.

“Bem, porque eu invejo seu nariz pontudo.”

Ele mostra a língua pra mim. “Vamos logo, já são quase sete. Vamos rápido para ronda na enfermaria.”

Sem esperar minha resposta, Nadia levanta e sai da loja. Eu pego minha bolsa e o sigo, saindo enquanto olho para o barista dando um rápido sorriso de agradecimento em sua direção. É quando o noto seguindo Nadia com os olhos.

Aff… é tão obvio que ele tem sentimentos por Nadia. Por que ele não toma uma atitude? Ou talvez ele ache que o que está fazendo já é claro o bastante então não há necessidade de algo mais. Mas cada pessoa tem o seu padrão de clareza. Para mim, o que ele está fazendo já deixa bem claro. Só que o problema é que não atinge os padrões de clareza do Nadia.

Nadia mencionou coragem.

Isso me fez ficar pensando. Ele disse que se a pessoa não tem coragem suficiente para deixar claro e se declarar para ele, então é um parceiro não desejável. Em contrapartida, eu acho que nós temos que mostrar um pouco de coragem. Certo? Se nós sentimos que a pessoa tem sentimentos por nós, e esse sentimento é recíproco, nós devemos apenas sentar e esperar que a pessoa tenha coragem? Isso é injusto.

Talvez, na verdade o amor nasça da coragem de ambas as partes.

Se as duas pessoas sabem que elas sentem a mesma coisa, e os dois decidem enfrenta-lo dando um passo pra fora da sua zona de conforto, eles vão se tornar próximos um do outro. Eu acho que se você continuar sentado de braços cruzados esperando que somente a outra pessoa demonstre coragem e sentimentos, então ficará difícil de florescer um relacionamento.

Mas olhando por outra perspectiva… e se a gente despertar a coragem e seguir em frente, e mesmo assim a pessoa não der um passo a frente…? Quanto mais eu penso em uma resposta, mais perguntas aparecem.

Pra mim, amor é um assunto complicado.

…………………

“Essa manhã foi cansativa? Aqui, coma bastante.”

Meu querido me pergunta enquanto me serve couve chinesa e barriga de porco salteada no meu prato.

“Obrigado, meu bem. Não muito cansativa. As vagas no meu setor da enfermaria estão cheias, então não tive novos pacientes.”

Mesmo não gostando de couve chinesa, eu me forço a comer um bocado. Bem, meu querido foi simpático e colocou no meu prato, como posso dizer a ele que como todos os vegetais menos couve?

“E você amor? Como foi hoje? Você está bem? Essa manhã você disse que não estava se sentindo muito bem.”

Ele assente. “Estou controlando. Não estava tão ruim essa manhã. Mas a clínica tem ar condicionado e meu nariz começou a escorrer e ficar entupido. Também estou me sentindo febril.”

“Ah não, sério?”

Em um sobressalto, eu toco sua testa como reflexo antes de perceber que estamos no refeitório do hospital, em meio à multidão. Mas ele não reclama. Apenas continua sentado me deixando sentir a sua temperatura.

“Ah… você está mesmo febril. Você tomou algum antitérmico?”

“Ainda não. Mas eu pedi alguns comprimidos, vou toma-los depois dessa refeição.

Eu assinto, alcançando a minha bolsa para pegar uma caixa de chá instantâneo de gengibre, e colocando em cima da mesa. Essa manhã ele disse que estava sentindo que iria ficar gripado, então quando eu cheguei ao hospital, eu corri para a loja de conveniência e comprei. 

“Beba chá de gengibre para acelerar sua recuperação. Quando eu era criança, minha vó sempre me fazia um bule cheio de chá de gengibre quando estava doente. Eu melhorava antes mesmo de terminar tudo.”

Ele sorri, balançando a cabeça. “O que é isso? Você é um doutor, por que está falando para eu tomar chá? Quando estamos doentes o que precisamos é de remédio. Nós temos uma vasta variedade de medicações modernas. Você é muito engraçado. É mesmo médico? Haha.”

Oh… mas por que?

Sempre quando estava doente, o chá de gengibre me ajudou a melhorar.

Por que ele não está acreditando em mim? E ainda por cima ele riu de mim.

“Obrigado, meu querido Tawan. Mas é melhor não. Eu não gosto de bebidas com gengibre. Tem o gosto… muito picante.”

Ele faz uma careta e depois me lança um sorriso, mostrando seus dentes perfeitos. Pelo menos esse sorriso consegue acalmar parcialmente o meu coração triste de antes. Ele se aproxima para tocar as costas da minha mão.

“Eu não quero tomar remédios ou qualquer outra coisa. Eu só quero o meu médico pessoal para cuidar de mim quando eu estiver doente. Por favorzinho?”

Eu sinto meu rosto queimar e abaixo minha cabeça para esconder um sorriso.

“Hum… sim, ok!”

“E também me dando banho hoje à noite.”

Ele então mostra a língua pra mim.

Isso me faz inclinar cabeça ainda mais pra baixo. Okay, talvez você pense que eu sou ridículo e que não deveria ficar envergonhado por coisas tão pequenas, como se nós já não tivéssemos feito isso antes ou como se não tivéssemos dividido o quarto por muito tempo. Mas eu estava verdadeiramente nervoso.

Mesmo que nós já nos vimos pelados e dormimos juntos, não significa que estarei imune a momentos como esse.

Não se esqueça que esse é meu primeiro namorado.

“É… você vai voltar para o trabalho? Você está com febre, não deveria descansar?”

Eu mudei de assunto para aliviar meu constrangimento, esperando que minha cara vermelha voltasse ao normal antes que ele percebesse. 

Ele balança a cabeça. “Isso não ajuda, Tawan. Eu não posso adiar as consultas dos pacientes, porque isso irá afetar os agendamentos dos próximos dias. Outros dentistas também já têm seus pacientes. Você entende não é? Quando você está doente ainda tem que vir trabalhar.”

“Mas consulta com dentista nem sempre são urgentes.” Eu afirmo.

Ele assente. ”Você está certo, se minha febre piorar, eu pegarei um atestado. Mas por agora…” Ele gentilmente toca minha cabeça. “Eu consigo. Tudo bem. Vamos terminar de comer, nós não temos muito tempo. Temos que nos separar para voltar a trabalhar em breve.

“Tá certo, meu bem.”

……………..

“Deixa eu perguntar de novo. Alguém pode pegar meu plantão no dia de Loy Krathong? Eu posso até pegar o plantão dobrado depois como retorno. Por favooorrr?”

Eu tento evitar fazer contato visual com minha colega enquanto ela suplicava. Hoje nós recebemos a lista da escala de rotação dos plantões do mês de novembro. E o dia de Loy Krathong é a data que todo mundo tenta evitar… Então nós sempre temos que discutir muito para nos decidir. Acabou caindo para essa colega. Mas ela ainda não desistiu de tentar trocar. 

Qual éééé … me deixem aproveitar o feriado só dessa vez.

Porque eu quero aproveitar meu feriado com o Senior Por.

Desde quando me tornei estudante de medicina, um interno depois da graduação, e agora médico residente, eu nunca evitei um plantão no feriado. Para feriados longos durante a semana como o Songkran no Ano Novo, se ninguém quisesse pegar o plantão, eu era o primeiro a me oferecer. Porque era solteiro. Então eu tinha tempo de sobra para cobrir os meus colegas que realmente queriam tirar o dia de folga no feriado para passar com a pessoa que ama.

Além do mais, meus pais estão em Bangkok, eu posso ver eles sempre que posso. E ainda, em feriados longos eles amam viajar sozinhos, deixando seus filhos em casa em Bangkok. Então, para mim, geralmente grandes feriados não são tão especiais. Tirar dias de folga não tem sentido. Por isso eu era um rosto conhecido nos plantões vagos de feriados. Eu sempre peguei o plantão do feriado de Loy Krathong… até agora.

Bom… esse é meu primeiro ano tendo um namorado.

Qualquer um gostaria de festejar o feriado de Loy Krathong com seu namorado. Certo?

Há muito tempo atrás, quando estava livre nesse feriado, e costumava ser puxado por Nadia para curtir as festividades na feira do templo perto da universidade, nós acabamos nos separando acidentalmente no meio da vasta onda de pessoas. Eu perdi minha carteira e tive que voltar andando de volta para universidade, porque não tinha dinheiro para pagar uma corrida nem em uma caminhonete táxi de dois lugares. Depois disso, eu nunca mais fui a nenhuma feira de Loy Krathong. Vamos dizer que essa experiência foi inesquecível pra mim.

Mas esse ano é diferente….

É meu primeiro ano com o meu namorado.

Eu quero flutuar o meu Krathong com o Senior Por.

Eu ainda não perguntei a ele, mas ele é dentista e não precisa pegar rotação de plantão como nós. Então, ele deve estar livre esse dia. E celebrar o feriado de Loy Krathong com seu companheiro é comum, não é? Eu acho que esse é um costume padrão. Todo mundo sabe que quando você está em um relacionamento sério, você flutua o Krathong com o seu namorado… Certo? Estou certo, eu acho.

Portanto, esse é o primeiro ano que eu vou flutuar o meu Krathong com um namorado.

………………….

“Hello, Mork.”

Hoje eu deixei o trabalho um pouco cedo. Os casos na minha ala são já existentes, então não demorei muito na troca de turno, já que todos os colegas de trabalho estavam familiarizados com os casos. Eu chego ao cruzamento da rua lateral do condomínio antes das sete. Então eu vejo o Sr. Mork, um rosto conhecido da estação de moto táxi. 

“Ah, oi, Doutor. Hoje você voltou cedo.”

Eu fecho a cara para ele. “Não me chame de Doutor. Você sabe meu nome agora, me chame por ele.

“Afff, doutor, agora já me acostumei a te chamar assim. Posso continuar a te chamar dessa forma?”

Ele sorri brincalhão para mim.

E sim… Olhando desse ângulo, seu rosto sorrindo é muito bonito. Não me admiro por ele estar na página Moto Taxistas Bonitos, Por Favor Compartilhem. Eu fui passageiro do Mork muitas vezes, mas só agora percebi o quão bonito ele é. Ele é alto, forte e um pouco bronzeado. Suas feições faciais são bem definidas e parecem mais bonitas quando ele sorri.

Ah, tudo bem! Eu pego meu celular para mostrar para ele a página.

“Olha só, Mork! Você está na lista da página Moto Taxistas Bonitos, Por Favor Compartilhem.”

Ele pega o celular e olha, franzindo o cenho.

“O que é isso Doutor? Que página é essa?”

“É uma página do Facebook. Eles postam fotos dos Moto Taxistas bonitos nos arredores de Bangkok, eu acho. E olha só.” Eu desço a tela para mostrar a foto dele. “Aqui, alguém secretamente tirou uma foto sua… Jovem e bonito Moto taxista no final da Avenida Phahon. Sem mais pista, pois esse já é meu.” Eu li uma parte da legenda para ele.

Mork dá uma enorme gargalhada. “Nooossa, as pessoas gostam de cada coisa sem sentindo! Moto taxistas bonitos, é? E tem página para taxistas bonitos também, Doutor?”

“Eu acho que tem, mas nunca procurei, ah, espera… Você disse sem sentido? Por quê?”

Eu desligo a tela do celular e o guardo.

“Ah Doutor, pessoas bonitas são comuns, não são? Doutores, vendedores de comida, moto taxistas ou taxistas, tem caras bonitos em qualquer profissão. Ah, tem também homens bonitos entre os varredores de rua do BMA próximo ao seu hospital. Tem muitos caras bonitos por aí, não sei porque é estranho ou importante criar uma página no facebook para isso.

Eu considero seu ponto de vista…

“Então, eu não sei. Talvez seja comumente entendido que moto taxistas não são bonitos, então quando eles encontram algum piloto bonitão, eles ficam surpresos e tentam compartilhar a informação com os outros.”

“Ah Doutor, até você mesmo, vou te usar como exemplo. As pessoas comumente acham que os médicos vão parecer descendentes de chinês, pele pálida e olhos puxados. Mas você não parece com o que dizem. Portanto” ele apoia o queixo na palma de uma mão e ergue uma sobrancelha olhando para mim “um cara bonitão como eu pode ser sim um Moto taxista. Não é estranho, Doutor.”

“Affff, você não é nem um pouquinho narcisista, não é? E sabe, a palavra ‘bonitão’ não foi feita para autoelogio. Deixe que outras pessoas decidam a intensidade desse elogio. Se você disser isso para você mesmo, as pessoas vão pensar que você se acha, eu estou te dizendo.”

Eu reviro meus olhos.

“Nossa, por quê? Homem bonito é bonito. Deixa eu te contar uma coisa, nos meus dias de estudante de curso vocacional, as garotas do departamento de comercio eram todas afim de mim. Eu não quero parecer arrogante, mas é isso aí.”

Ele diz isso de forma orgulhosa e de braços cruzados… Hum, entendi, ele fez curso vocacional. Isso é equivalente ao décimo segundo ano, não? Sim, talvez. Não sou mais familiar com o sistema, então não tenho certeza.

“Então Doutor, você gosta de olhar a página de Moto Taxistas Bonitos?” Ele me pergunta.

“Nãããoo, eu não. Nadia achou e mostrou para mim.” Eu balanço a cabeça.

“Ahh, é seu amigo de coração partido, certo? Como ele está? Está se sentindo mais alegre?” 

“Sim, ele está mais alegre. Ele é muito forte.” Eu omito a parte que deveria dizer que ele é o próximo alvo de Nadia, pois não quero chocar ele.

“Doutor, você está indo para o mesmo condomínio, certo? Espere um minuto, deixa eu pegar meus remédios.”

Então, ele pega dois comprimidos antitérmicos e joga eles na boca antes de engolir com a água de sua garrafa. A garrafa de meio litro se torna vazia em pouco tempo. Ele toma água como um camelo.

“Ai não, você está doente?” Eu pergunto.

“Sim, estou tendo febre.” Ele responde e eu noto também que sua voz soa mais nasal hoje.

Como de habito, eu coloco a mão na sua testa. Porém ele não parece surpreso. Ao invés disso, ele inclina o corpo um pouco mais pra frente para ficar mais fácil de alcançar.

“Nossa, você está quente.” 

“Sim, depois de deixar você, eu acho que eu vou até uma farmácia comprar um anti-inflamatório pra mim.” Ele então me entrega o capacete de segurança.

“Não de jeito nenhum! Não tome comprimidos anti-inflamatórios.”

Eu pego o capacete, mas ainda não o coloco.

“Por quê? Todo mundo toma anti-inflamatórios para curar dor de garganta.”

“Você está com dor de garganta também?” eu pergunto e Mork assente. 

“Abra sua boca, deixa eu examinar.”

Eu ligo o flash do meu celular. Mork, de forma obediente, abre bem a boca e curva a parte de cima de seu corpo para frente. Hum… Mallumpati um, boa visibilidade, um pouco inchada e vermelha, sem pus. Eu desligo o flash e guardo meu celular novamente.

“Hey, seu resfriado é de vírus. Você não precisa de antibióticos.”

Ele franze a sobrancelha. “Que medicação é essa, Doutor? Anti bio? O que?”

“Antibiótico ou antimicrobianos. O mesmo tipo de droga que você chama de anti-inflamatório.”

“Ah, não preciso? Uma gripe é uma infecção causada por micróbios, então nós precisamos de antimicrobianos, certo?”

Ah, cara… Ele está discutindo. Agora quem é o Doutor e quem é o Moto taxista, eu me pergunto.

Mas isso é comum. Faz tempo que eu discuto com essa crença maluca. Pessoas da Tailândia tem o costume de comprar e tomar antibióticos assim que eles têm uma dor de garganta, acreditando que não irá curar sem antibióticos. Pior ainda, eles preferem remédios de alta potencia.

Isso começou com Amoxicilina, agora todos estão usando Amoxiclav sem precisar de prescrição médica. Esses são facilmente encontrados em farmácias. Algumas farmácias nem tem um farmacêutico. Além disso, eu tive alguns pacientes que tomaram Cefalexina antes de se consultar com um médico. No futuro, essas bactérias irão se tornar resistentes. E então, para qualquer infecção bacteriana, tudo o que poderemos fazer será sentar e orar para que a bactéria morra sozinha. 

“Gripes comuns são causadas por vírus. Mas antibióticos matam bactérias. São tipos diferentes de micróbios. Para o vírus, nós podemos confiar no seu sistema imunológico para matar ele. Você só precisa tomar um antitérmico, dormir bastante, e beber muita agua. Isso é tudo.”

“Mas eu estou tossindo também, Doutor. Meu catarro está verde. Eles dizem que isso significa que tem pus no meio e então precisarei de antimicrobianos.”

Droga. Mais essa. Catarro verde é porque está misturado com pus, ah tá. Você não acha que pode ter creme pandan também?

Eu reviro os olhos. “Eles? Quem são eles? Os médicos?”

Sr. Mork balança a cabeça. “Eles significam ‘eles’ em geral, Doutor. Outras pessoas. Todo mundo.”

Eu suspiro. “Me ouça e reescreva sua memória, Mork. Quando há um resfriado e estamos nos recuperando, seu muco desce pela garganta e seu nariz fica com coriza. A gripe pode tornar seu catarro amarelo ou verde. Esse é o sinal de que está melhorando. Não significa pus. Não tome antibióticos.”

“Tem certeza, Doutor? Então eu não preciso de antibióticos?”

Ele ainda faz uma cara de dúvida. Eu assinto.

“Confie em mim. Eu sou seu maldito Doutor. Se eu digo que você não precisa, então não precisa. Pare de ouvir pessoas aleatórias que não são médicas.”

“Ah, que bom, eu acho. Antibióticos são caros. Eu não quero gastar dinheiro.” Ele anda em direção a sua moto. “Doutor, vamos logo. Nós falamos por muito tempo, seu namorado deve estar esperando.”

Eu coloco o capacete e afivelo antes de andar em direção a garupa da moto.

“Olha, pegue isso.” Eu procuro na minha bolsa a caixa de chá de gengibre instantâneo que originalmente comprei para o meu querido Por e entrego para o Mork. “Se você quer acelerar sua recuperação, faça um chá de gengibre bem quente e tome. Confie em mim, quando era criança, minha vó sempre preparava isso quando eu ficava doente. Eu sempre voltava ao normal antes de terminar o bule de chá de gengibre.”

“Ah, nossa, obrigado Doutor.” Ele pega e coloca no cesto dianteiro da moto.

“Vamos, suba na moto. Vou te deixar em casa.”

“Okaaaay” eu sento no lugar do passageiro, uma mão na alça traseira da moto e a outra no seu ombro. Então, Mork liga o motor.

No início, quando tive que andar de moto e encontrei ele, os únicos pensamentos na minha cabeça eram de que seria assustador e perigoso. Mas ele me ensinou como andar na garupa de uma moto. E minhas perspectivas mudaram de ver isso como perigoso e assustador, para uma atividade comum no meu dia a dia.

Enquanto passageiro, eu confio na segurança de estar na garupa dele…

Talvez seja igual hoje, que ele aprendeu a confiar em mim, e aprendeu que uma gripe não precisa de antibióticos e também aprendeu que catarro verde não é pus e sim um sinal de recuperação. Ele também confia que o chá de gengibre acelera a recuperação. Mork mudou voluntariamente suas crenças antigas e opiniões pelo que eu disse a ele.

Eu acho que… isso é um sinal, uma prova de confiança.

“Ah, chegamos Doutor.”

Ele estaciona em frente ao condomínio e desliga o motor.

“Aqui, trinta baht.”

Eu entrego a ele o dinheiro, mas ele balança a cabeça.

“Não, Doutor. Hoje você me examinou e me deu chá de gengibre. Só trazer você em casa não é nem o suficiente.”

“O que? Não! Outro dia você me ajudou a carregar o Nadia de volta para o dormitório no meio da noite e só aceitou o valor da corrida.”

Ele insiste em rejeitar o pagamento.

“Se nós continuarmos contando os débitos e vice e versa, isso nunca vai terminar. Nós somos amigos. Amigos ajudam uns aos outros dessa forma. Não vou cobrar a corrida. Até mais! Tenha bons sonhos, Doutor.”

Eu sorrio de volta enquanto devolvo o capacete.

“Tudo bem, então. Nós somos amigos. Tenha bons sonhos, Mork”

Exatamente. Este é o caminho do ser humano em uma comunidade. Nos encontramos, nos familiarizamos, nos comunicamos e aprendemos a confiar uns nos outros. Então começamos a ser amigos.

……………..

Notas de rodapé

Cabeça- Na cultura Tailandesa, a cabeça é considerada uma parte sagrada e restrita do corpo. É geralmente rude tocar uma pessoa na cabeça sem permissão, especialmente quando a pessoa não é criança e nem mais novo que você. Algumas exceções devem existir dependendo do grau de intimidade e relacionamento interpessoal. Nesse contexto, a reclamação de Tawan foi uma brincadeira.

Krathong – é uma pequena embarcação flutuante (às vezes chamado de flutuante) fabricado comumente de materiais naturais ou sintéticos como lascas do tronco de bananeira, folha de bananeira, pranchas de isopor, folhas de papel, gelo ou pão e decorado com flores e folhas reais ou artificiais. Loy Krathong significa “flutuar o barco”.

BMA – Administração Metropolitana de Bangkok, o governo local de Bangkok.

Mallumpati – Uma classificação das vias respiratórias. A pontuação depende do grau de obstrução da garganta da pessoa.

Creme Pandan: Sobremesa tailandesa de cor verde.