Mork

“Oi gente, vocês continuam acordados?”

Eu estou surpreso em ver meus tios sentados a mesa de jantar no primeiro andar quando eu chego em casa, sendo já meia noite. Geralmente, eles vão dormir por volta das 23h00 e todas as noites eu escuto eles roncarem, através do chão do meu quarto no terceiro andar, em uma competição. Eu me pergunto por que eles ainda estão acordados e na mesa de jantar.

“Esperando pela partida de futebol. Você quer assistir com a gente?”

Ah… Então é por isso.

Eu também noto que cada um deles está segurando uma lata de cerveja, a bebida confirma sua resposta. Certo. Eles são obcecados por assistir o Campeonato de Futebol Europeu. Durante a temporada de partidas de futebol, às vezes eles passam a noite acordados para assistirem a transmissão até tarde já quase de manhã e até abrem a oficina mais tarde de vez em quando.

“Não, obrigado. Mas, estou com fome. Vocês tem algo que eu possa comer?”

Ao contrário deles, eu não gosto de assistir futebol. Não sei por quê. Quando os caras mais velhos da estação de moto táxi me convidam para assistir uma partida com eles ou falam sobre futebol e só olho como se fosse mudo, eles sempre perguntam por que eu não assisto futebol.

Bom, como eu vou responder essa pergunta? Eu apenas não gosto. Se eu soubesse por que não gosto, então seria fácil me livrar da razão e começar a gostar. Às vezes as pessoas perguntam coisas bobas. Por que eles não podem assentir e aceitar minha resposta?

“Nada. Só cerveja. Você quer um pouco?” Meu tio mais novo me oferece uma lata de cerveja.

Eu balanço minha cabeça. ”Como isso pode encher meu estômago, tio. É só cerveja.” 

“Eu não sei, é a única coisa que a gente tem. A geladeira também está vazia.”

“Nós não temos mais nada? Nem mesmo macarrão instantâneo?”

Eu sigo em direção ao armário de comida e verifico a prateleira de alimentos secos na parte superior. Agora eu me lembro, ontem eu peguei o nosso último macarrão instantâneo e comi cru depois de esmaga-lo do lado de fora da embalagem. Meu tio mais novo até murmurou que eu não devia comer isso, pois causa dor no estômago. Eu fecho o armário de comida que está tão vazio quanto meu estômago.

“Então eu vou sair para comprar algo para comer. Vocês querem alguma coisa?”

“Não. Obrigado! Apenas dirija com cuidado. Já é tarde da noite.”

“Sim, senhorrrrr.”

Quando estou me afastando, ainda nem perto da minha moto, meu tio grita atrás de mim.

“Ei, ei, espera. Eu esqueci! Compre alguns macarrões instantâneos, já que você perguntou.”

Eu me viro e assinto. ”Okay, tio. Mais alguma coisa?”

“Sardinhas enlatadas. E ovos frescos, assim não teremos que comer macarrão puro. Pegue alguns munchies também. Aquele de marca desconhecida, com uma carinha verde sorrindo.”

“É Snack Jack. Do jeito que você descreve quase não dá pra entender.” Verde com a carinha sorrindo, meu palpite deve estar correto.

“Sim, esse mesmo, nackjack. Pegue dois. Vai bem com cerveja.”

“Mais alguma coisa? Primeiro você falou não obrigado, agora a lista está tão grande quanto o mantra Chinnabanchon.”

“Sim, isso é tudo, filho. Volte rápido, okay?”

Okay, finalmente eu consigo ir.

Geralmente, eu não como muito tarde da noite. Não porque eu estou de olho no meu peso ou porque não é saudável. Tenho medo que meu estômago fique doendo. Se eu como fora do meu horário de refeição usual, eu fico com dor no estômago. Mas eu não comi o suficiente essa noite, então estou sentindo fome de novo tarde da noite. E ao contrário de mais cedo, se eu não comer agora sinto que vou ficar com dor de estômago.

É, coitado de mim, pooobre Mork!

E tem que ser bem no dia que não temos comida em casa. Agora eu tenho que ir de moto até uma loja 7-Eleven mais próxima da rua lateral, a mesma onde se localiza a estação de moto táxi. Eu já contei antes que a oficina dos meus tios fica perto do meu trabalho, por isso eles conhecem o mano Fueng.

Quando minha rua terá sua própria 7-Eleven? Assim eu não terei mais que dirigir até a outra rua. Não que seja longe, é por que sou preguiçoso. E eu tenho que tirar meu pijama – geralmente só uma regata e um shorts de tecido fino – porque tenho medo de algum cachorro vadio tente me morder e eu esteja sem calça.

Ei, espera… Na verdade, mesmo se minha rua tivesse sua própria 7 –Eleven não significa que eu poderia andar por aí de shorts e regata. Não muda nada praticamente. Eu acho que estou com tanta fome e sono que estou ficando meio idiota. Eu vou pegar alguma comida rápido e vou dormir.

Então, eu ligo meu motor e vou embora.

…………..

“Você gostaria de comprar alguns bolinhos e pãezinhos feitos no vapor também?”

Eu olho para as minhas compras e olho no balcão do caixa… Eu já estou comprando dois espetos de bolinhos de carne de caranguejo e pãezinhos de porco desfiados no vapor, ela quer que eu compre mais?”

“Ah, moça, eu já peguei bolinhos e pães.”

“Oops, me desculpe senhor. Você gostaria de comprar uma garrafa de desinfetante de banheiro?”

“Um, não, obrigado. Eu já tenho molho para os meus bolinhos.”

Eu pego meu troco e saio. Eles não vendem ovos aqui, então eu só comprei dois pacotes de salgadinhos para mim, macarrão instantâneo, sardinha enlatada e o Snack Jack que o tio pediu. Eu estou com tanta fome que começo a comer os bolinhos ali mesmo.

“Ai, tá quente pra caramba!”

O primeiro bolinho queima minha boca, então eu sopro cuidadosamente o próximo antes de comer. Meu plano original era voltar pra casa e comer lá, mas talvez eu termine aqui mesmo e só depois voltarei pra casa.

Ei, olha só. Alguém conhecido. É o Doutor.

O que ele está fazendo andando pelo cruzamento sozinho a essa hora?

“Eei, Sr. Doutor. Indo comprar a refeição da madrugada?”

Eu o chamo depois de colocar o terceiro bolinho na boca.

“Ah, Sr. Moto taxista. Não, só tentando achar um táxi. Eu tenho que correr para o hospital.”

Ele me responde, mas seu olhar está na rua, aparentemente procurando por um táxi. Até parece que vai achar um! Não tem nenhum táxi por aqui agora. É uma vizinhança parte residencial parte empresarial, quase ninguém viaja a noite. Por isso, taxista não vem aqui durante a noite porque não tem passageiro.

“Hãn? Você foi chamado? É algum paciente urgente?”

Eu já vi isso em algumas séries, os médicos são chamados nos hospitais em casos de emergência. Talvez esse rapaz doutor seja igual.

Mas ele olha pra mim e balança a cabeça.

“Não é um paciente, mas sim, é uma emergência. Pode ser até pior que um paciente.”

Eu levanto minhas sobrancelhas, colocando dois bolinhos de uma vez na boca.

“hummm? Oquéãodotr? Nã é cintmaemenrcia?”

Ele inclina a cabeça em minha direção. “O que você disse? Não consegui entender?”

Eu rapidamente mastiguei e engoli antes de repetir. “O que é então, Doutor? Não é paciente, mas é uma emergência?”

“Da próxima vez termine de mastigar e engolir antes de falar. Você vai ficar engasgado se a comida ir parar na sua passagem de ar. Entendido?”

Nossa, olha só… Até mesmo sem o seu uniforme médico, ele continua fazendo seu trabalho. Será que ele é mesmo um médico e não um professor do escritório de disciplina?

“Bom, eu não sei… você disse que estava com pressa então eu me apressei para responder.”

“Um, é meu amigo.” Ele olha pra mim. “Ele está terrivelmente bêbado em uma festa no hospital. Ele me ligou e chorou feito uma criança. Estou preocupado, então preciso ir ver se ele está bem. Por isso estou procurando um táxi.”

Ele começa a olhar para pista de novo. Como eu disse, é inútil. A rua está tão vazia. Não tem nenhum carro, nem mesmo os carros de passeio. Quem dirá um táxi.

Eu coloco os dois bolinhos restantes na minha boca, e bato levemente no ombro dele. “E se aoado?”

“Hãn… o que? Eu te disse para terminar de mastigar e depois falar.”

Ele me repreende novamente, então rapidamente eu engulo toda a comida.

“Por que você não pede para seu namorado te deixar lá? Ele tem carro.”

“Senior Por esta dormindo e não quero acordar ele.”

Ah… então o nome do namorado bonitão dele é Por? Que tipo de cara se chama Malaeng Por (libélula em tailandês)? Parece nome de menina!

“Talvez você possa emprestar o carro dele. É só por um tempinho, acho que ele não iria se importar.”

O Doutor olha pra mim. “Eu não sei dirigir.”

Eu solto uma gargalhada. “Doutor, eu não acredito! Você nunca andou de moto e não dirige carro. Você nasceu para ser um passageiro.”

Ele revira os olhos para mim por um bom tempo. “Tá bom! Ria o quanto quiser. Mas não tem graça. Eu estou tão preocupado com meu amigo! Sr. Moto taxista, não tem nenhum táxi por aqui mesmo? Eu tentei procurar com o aplicativo Grab e mesmo assim não achei nenhum.”

“Vamos, Doutor! Eu te deixo lá.”

Eu me ofereço. Eu já comi e não estou com pressa. Ainda não é a hora de começar jogo, e meus tios não estão com fome.

Ele se vira e olha pra mim, meio confuso e surpreso.

“Um… Você vai mesmo me levar lá? O hospital é longe.”

“São só quatro quilômetros daqui, Doutor. Não é longe.”

Eu coloco meu capacete de segurança e abro o baú da moto para pegar outro para ele, me perguntando se o senso de direção do Doutor é diferente da maioria das outras pessoas. Por que ele disse que quatro quilômetros era longe?

“Não é longe, Doutor! Vamos chegar lá rapidinho. Vamos lá, suba! Você está preocupado com seu amigo, não é? Então vamos logo.”

Eu o entrego o capacete novamente. Dessa vez o Doutor curioso o pega e coloca sem mais perguntas.

“Ahan. Obrigado. Eu vou te pagar pela hora.”

“Vamos discutir isso depois que você achar o seu amigo, o pagamento pode esperar. Mas você tem um plano sobre o que fazer em seguida? Eu acho que posso levar dois passageiros, mas se seu amigo estiver muito bêbado, é melhor não arriscar, sabe?”

“Não vou te incomodar com isso.” Ele torce o nariz para mim. ”Eu acho que consigo levar ele até o dormitório médico. Mas agora…”

Ele afivela a correia do capacete e senta na garupa. Uma mão na barra de segurança e outra no meu ombro como de costume. “… me leve rápido para o hospital. Você sabe onde é, né? É aquele do cruzamento.”

“Claro que eu sei. Meus tios sempre pegam medicamentos lá. Se segure firme Doutor, eu vou acelerar. Se não se segurar bem, você pode cair e em vez de ajudar o seu amigo, vai ser você quem vai precisar de atendimento médico.”

“Pode acelerar. Eu não estou com medo.”

Mesmo ele dizendo isso, eu consigo sentir suas mãos apertando meu ombro mais que o normal. Eu sorrio internamente enquanto engato a marcha e parto em direção ao hospital.

…………..

“Nadiaaaaaaa!”

Eu ainda nem estacionei direito e o Doutor baixinho já salta da moto, correndo até a base das escadas no prédio do auditório. É um milagre que ele não tropeçou. Aquelas perninhas pequenas parecem servir só pra andar. Eu desligo o motor antes de começar a seguir ele.

“Nadia, você está bem?”

O amigo dele está sentado na base das escadas com a cara caída. O Doutor corre para ajudar o rapaz a se sentar reto, enquanto dá alguns tapinhas em seu rosto para ajudá-lo a acordar. Eu acho que o Doutor estava mesmo com pressa porque ele pulou da moto e correu sem nem mesmo me devolver o capacete. Ele acomoda seu amigo com o capacete balançando sob sua cabeça. Fico feliz que o peso total da cabeça não o fez tombar.

Eu me aproximo para ver se não há nada que eu possa fazer para ajudá-los.

“Caramba… Tawan, como você chegou aqui?”

O amigo lentamente abre os olhos. Oh, nossa. Mesmo de longe eu consigo ver que seus olhos estão tão vermelhos, tanto por chorar quanto por beber. Um pouco de cada.

“Você me chamou para te buscar, Nadia. Não se lembra?”

“E… Por que você está usando um capacete?”

Depois de ser apontado pelo seu amigo bêbado que se chama Nadia (?), meu passageiro finalmente percebe que ainda não tirou o capacete. Ele desabotoa as fivelas e passa de volta para mim, que estou atrás dele.

“Desculpa, eu esqueci.”

“Tudo bem, Doutor.” Eu tiro meu capacete e continuo olhando. “Tem alguma coisa que eu possa fazer para ajudar?”

“Não tem mais ninguém por aqui e eu não sei pra onde o segurança foi. Você pode me ajudar a apoiá-lo? Eu não consigo sozinho.”

Então, o colega Doutor puxa o braço de seu amigo e coloca em seu ombro, e depois me encara. Isso é para eu perceber que ele quer que eu faça o mesmo com o outro braço do amigo para suportar seu peso?

“O nome do seu amigo é mesmo Nadia? Maneiro. Que contraste com a aparência dele.”

É verdade. Dr. Nadia é alto, robusto, musculoso e tem uma barba por fazer. Sua estrutura de corpo é similar a minha e seu rosto um pouco impiedoso, o que não combina com o nome Nadia.

“O nome dele é Not, mas ele mudou para Nadia.” Juntos, nos apoiamos o Dr. Nadia, anteriormente Dr. Not, e o ajudamos com os nossos ombros. “Ei, você pode me ajudar a levá-lo para o dormitório médico? Eu não consigo carregá-lo sozinho.”

“Eu ajudo, Doutor. Não vou deixar você carregar seu amigo sozinho. Mas onde fica o dormitório?”

“Atrás do hospital, senhor. Por aqui.”

Então nós carregamos Dr.Nadia, terrivelmente bêbado, meio dormindo e meio acordado, ao longo do trajeto silencioso pelo hospital. Nós mal conseguimos administrar a tarefa exaustiva, já que ele é pesado. E ainda por cima, a diferença de peso está nos causando um grande problema no equilíbrio. Eu tenho um corpo grande, enquanto o Doutor do outro lado é bem pequeno, fazendo com que a pessoa que nós estamos carregando entre a gente, se pendure inclinada para um lado.

“O apelido antigo de Nadia era Not. Mas ele disse que uma vidente o avisou que o nome Not não era auspicioso, e que os rapazes não iriam se atrair por ele.”

O pequeno doutor fofoca sobre seu amigo, que está totalmente desgastado, meio sonolento e sendo carregado nos nossos ombros. Eu viro minha cabeça para olhar ele, que não está se movendo. Eu acho que não está ouvindo nada, pois já está dormindo.

“Então, ele mudou seu nome de Not para Nadia? Nossa… Achei que médicos não acreditassem em videntes.”

Sr. Doutor dá uma gargalhada.

“Não para qualquer assunto. Só alguns. Às vezes nos acreditamos cegamente em assuntos específicos, como questões amorosas, por exemplo.”

Sua resposta me deixa curioso.

“Por que, Doutor? Por que você acredita em videntes para assuntos amorosos?”

“Talvez porque outros assuntos na vida tem alguma lógica e podemos achar uma razão que possa explicar isso. Se nós não nos esforçarmos para trabalhar, nós não ganhamos dinheiro. Se nós não temos emprego, nós não teremos comida. Se nós não tivermos talento e habilidades, não conseguimos avançar profissionalmente. Se negligenciarmos a nossa saúde, ficaremos doentes.”

Ele pausa antes de olhar para mim.

“Mas o amor não consegue ser explicado com a lógica. Então nós nos agarramos a algo por esperança e conforto, como divindades ou videntes. Nós confiamos nisso para acalmar nossos corações quando o assunto é amor.”

Eu assinto. Nossa, essa é uma resposta racional para explicar o motivo de ser supersticioso.

“Ah, e você, Doutor? Você acredita em videntes?”

Ele balança a cabeça. “Eu não. O mesmo vidente que avisou Nadia sobre seu nome, me disse que minha alma gêmea era uma pessoa mais jovem. Mas meu namorado é mais velho que eu. Então está errado.”

“Aahh, vai saber! Às vezes seu namorado atual não é sua alma gêmea.”

Eu provoco.

“Se eu acredito que ele é, então eu posso fazer dele minha alma gêmea. Não preciso de nenhum vidente para confirmar minha vida.”

Ele torce o nariz pra mim enquanto responde.

“Ohhh! Você está tão irritado que dói! Onde você viu isso?”

“Meu irmão mais velho postou isso no Facebook hoje à tarde.”

Ah, entendi… ele tem um irmão mais velho. Por isso que ele parece um irmãozinho mais novo. Eu não consigo adivinhar sua idade pela aparência. Mas meu amigo disse que os médicos levam seis anos para se graduarem. Ele já é médico (o nome na sua jaleco dizia Dr., então isso significa que ele já se graduou), portanto ele deve ser mais velho que eu.

Sem seu jaleco, eu realmente não sei como ele poderia ser mais velho.

Nós três chegamos a um cruzamento em forma de T… Para ser exato, mesmo sendo três, o trabalho são só de quatro pernas.

“Okay, Doutor, agora pra que lado a gente vai?” Eu pergunto.

“Para a direita, até o fim do caminho. Aquele prédio no escuro é o dormitório dos médicos.”

A junção tem dois caminhos, um é bem iluminado, enquanto o outro é escuro. E o Doutor indica em direção ao caminho escuro.

“Aahhh, é longe Doutor. Eu não consigo ver nem onde termina.”

Além do mais, está assustadoramente vazio. Eu estou feliz de estar acompanhando ele, caso não estivesse, seria terrivelmente preocupante. Ele é tão frágil, e o amigo que ele está carregando está tão bêbado que nem consegue cuidar de si mesmo. Eu sei que é seguro estar dentro dos muros do hospital. Mas esse hospital é tão grande, que alguém poderia entrar sorrateiramente sem ser notado. 

“Não é tão longe. Você apenas não consegue ver porque está escuro. Quando é dia e você olha para o prédio, não parece ser tão longe.”

Ele balança a cabeça e continua a carregar e empurrar seu amigo para frente.

“Então…” Eu aponto para o Dr. Nadia que agora parece estar longe de acordar e ajudar a carregar seu peso, “O que aconteceu com o seu amigo o que fez ficar bêbado desse jeito?”

“Ele não me ama… Tawan. Ele não me ama.”

Heh… Dr. Nadia magicamente levanta sua cabeça instável, bêbada e meio sonolenta, pra me dar uma resposta. Nooossa credoo… Ele tem um cheiro fortíssimo de sapodilla plum. Parece que ele bebeu um fardo de bunda.

Eu sempre achei que médicos só bebiam bebidas caras quando vão a festas. Eu não tenho certeza se eles tinham bebidas caras nessa festa, mas pelo que eu estou vendo, eles ficam bêbados assim como nós. E o bafo cheira como sapodilla plum igual a todo mundo.

“Ele? Quem é ele Nadia? Você disse que iria me contar, mas não contou?”

O Senhor doutor ri e pergunta ao amigo.

Ah, tá bom… eu acabei de notar que o Dr. Nadia se referiu ao doutor menor como Tawan… nome legal. Eu gostei. Hoje em dia as pessoas têm nomes excêntricos, nomes de sons estrangeiros. É raro achar alguém que o nome é uma palavra simples e fácil de entender em tailandês.

“É o… Senior… Ganghan.”

Doutor Nadia responde com suas pálpebras meio fechadas, mas o pequeno Doutor Tawan para de andar, e olha para seu amigo com olhos arregalados. Eu estou confuso sobre o porquê da resposta “Senior Ganghan” parece ser tão impressionante para ele.

“Merdaaa! O Senior Ganghan não é passivo?”

Doutor Tawan fica tão chocado que ele faz a pergunta quase gritando.

“E daí, vadia? Eu amo ele. Seja lá o que ele for, eu amo ele.”

O doutor bêbado dá uma resposta mesmo em seu estado crítico.

“Mas você não pode amar alguém que é passivo assim como você.”

Na realidade, Doutor Nadia volta ao seu estado relaxado e sonolento de novo antes do Doutor Tawan poder terminar de falar, deixando ele o encarando com os olhos arregalados e eu sem fazer ideia do que estava acontecendo.

“Hey Doutor, eu posso te perguntar uma coisa? O que é… esse negócio de passivo que você falou aí?”

Já que ele não está falando mais nada, e o Doutor Nadia voltou a dormir, deixando sem chances de iniciar um interrogatório, eu aproveito a oportunidade para perguntar.

“Uh… Como eu digo isso…” Ele parece envergonhado pela resposta iminente. 

“Um…’passivo’ é quando a pessoa está sendo passiva.”

Oh, wow. Nossa Doutor. Que resposta mais maluca, eu quero bater nele com meu punho, se eu tivesse uma mão livre.

“Baahhh Doutor! Que tipo de resposta é essa? Não esclareceu nada.”

“Um… quando dois rapazes estão fazendo aquilo juntos, vai ter um que é o ativo e o outro que é passivo, certo?”

Ele começa a explicar tudo novamente com mais detalhes, e gaguejando mais, enquanto eu estava todo atento pela informação principal.

“Ativo significa a pessoa que… que realiza.”

Ele parece estar tão enrolado par finalizar sua frase que eu não aguentei esperar ele terminar de falar.

“Realiza?… Como assim? Que difícil de entender.”

Sua explicação não me ajuda a chegar perto de entender. Eu estou realmente confuso, não estou me fingindo de burro, eu juro.

“Aquele que coloca lá dentro!!! Você sabe, colocar pra dentro? Aquele que penetra. O ativo é quem faz a penetração, e o passivo é quem recebe.”

Doutor Tawan vira sua cabeça pra me lançar um olhar, seu olhos estão tão arregalados que parecem que vão pular pra fora. Isso o faz parecer um mascote do sapo verde que ficou famoso um tempo atrás, qual o nome eu não consigo me lembrar agora.

“Hahaha! Okay Doutor, sua clareza já me deu uma ideia. Passivo e ativo, que termos estranhos. Por que eles não usam apenas os termos esposa e marido que são mais simples? Eu rio enquanto penso nos meus tios, o casal de mesmo sexo na minha família…

“É, então isso significa que seu amigo é… passivo? E ele se apaixonou por alguém que também é passivo?”

Ele assente. “Aham. Senior Ganghan é um médico da casa do nosso departamento que nos treina sobre doenças do cérebro. Ele parece ser um rapaz legal, amável e gentil. Eu acho que o Nadia gosta desse tipo de pessoa. Mas ele é passivo que nem ele.”

Terminando sua frase, Doutor Tawan olha para o Doutor Nadia. “Viu, quando você ama uma pessoa que é exatamente igual a você, isso significa que não combinam. Não há jeito deles serem amantes.”

“Hey, isso não é verdade, Doutor.” Eu desaprovo.

Doutor Tawan olha para mim com os olhos entreabertos. “Por quê? Como isso não é verdade?”

“Deixa eu perguntar, Doutor. Esse cara do condomínio que você está ficando, ele é seu primeiro namorado?”

“Uh sim, como namorado oficial, ele é o primeiro.”

“Então, isso significa que você nunca teve seu coração partido antes, certo?”

“É…….” Ele reflete um pouco antes de responder. ”Sim, você está certo.”

“Então, eu digo que você não conhece o verdadeiro obstáculo do amor.”

Eu declaro isso me sentindo triunfante, pois ele arqueou suas sobrancelhas para mim.

“Por que você acha que eu não sei sobre os obstáculos do amor? Só porque eu nunca tive meu coração partido não significa que eu não sei nada sobre isso.” Ele argumenta.

“Se esse é o caso, Doutor, o que você acha que é então?”

“É quando um não pode amar o outro.” Ele responde quase instantaneamente. “Olha só para o Nadia e o Senior Ganghan. Ambos são passivos. Eles são iguais. Como podem se tornar namorados?”

Eu rio. “Doutor, você é tão infantil. Hahaha! Eu não sou gay, mas eu sei que quando duas pessoas se amam, o que o casal faz na cama não é um problema. Eles podem se adaptar. Eu acho que dois passivos conseguem ficar juntos. Se eles se amam, eles podem achar um jeito.

Eu pauso e espero ele olhar pra mim para a próxima parte.

“E então, qual é o obstáculo do amor?”

Ele provavelmente viu que eu fiquei em silêncio e decidiu pressionar.

“O obstáculo do amor é quando a pessoa não te ama, doutor.”

Dessa vez, eu ganho um olhar de espanto do Doutor Tawan.

“Nossa…. que precisão. Me deixe emprestar isso para usar no lugar de um bisturi.”

Eu celebro novamente. “Ou isso não é verdade, Doutor?”

“Sim, é verdade. Você ganhou dessa vez.”

“Sim, clarooo que siiim.” Eu rio.

“De onde você tirou aquilo, sério?”

Eu dou de ombros. ”Eu me lembro disso de uma série chamada Wake Up, Ladies. Você nunca assistiu? É engraçado.”

Ele revira os olhos bufando pelo nariz.

“Ah! É quase impossível até dormir, não tenho tempo de ver TV.”

Nós conseguimos arrastar o Doutor Nadia para frente do dormitório e felizmente, tem um guarda em serviço por lá. Ele corre para ajudar o Doutor Tawan a subir as escadas com seu amigo. Eu não percebi o quão pesado Doutor Nadia estava até seu peso ser tirado de mim. Meus ombros estão dormentes. Eu olho para o Doutor Tawan, pensando que ele deve estar pior do que eu porque ele é menor e aposto que ele tem menos força.

Ele olha para mim e pega uma cédula de 500 baht de sua carteira.

“Obrigada Sr. Moto taxista. Aqui está o pagamento.”

Eu apressadamente balanço minhas mãos recusando.

“Uooouu, Doutor, isso é muito. Você está doido? São 500 baht. Eu não vou aceitar.”

“Aff! Apenas pegue! Sem você, teria sido um desastre. Para mim e para o Nadia.”

Ele insiste e eu aceito a gorjeta a mais.

“Se você quer me pagar, me dê cem. Essa é a tarifa da sua viagem para o hospital. Mas pela minha ajuda em carregar seu amigo, isso é um serviço extra, livre de cobrança. Considere isso uma troca, por me esclarecer o que é passivo e ativo. Hahaah!”

“Seu esquisitão…” Ele ri e coloca de volta em sua carteira a cédula de 500 baht, e me entrega outra de 100 baht no lugar.

“Muito obrigado, Sr. Moto taxista. Sem você, eu estaria ferrado.”

“É Mork, Doutor.”

“Ahn… o que?”

“Meu nome é Mork. A partir de agora, me chame de Mork. Eu não quero mais ser o Sr. Moto taxista. Por favor me chame pelo meu nome.”

Eu sorrio mostrando meus caninos, enquanto dobro a nota de 100 baht e a guardo no bolso. 

“Muito bem, então a partir de agora, você deve me chamar de Tawan ao invés de Doutor. Entendido?”

Ele sorri de volta. “Essa noite eu não vou voltar para o condomínio. Eu vou dormir no dormitório dos médicos. Quer que eu te leve de volta até sua moto? Você consegue achar o caminho?”

Eu balanço minha cabeça.

“Nãããoo, não há necessidade Dou – opps!- Tawan. Eu consigo achar o caminho de volta. Vai lá cuidar do seu amigo.”

“Obrigado, Mork. Dirija com cuidado.”

Ele sobe dois degraus na escada e olha novamente para mim. “Tenha bons sonhos, Mork.”

Eu assinto pra ele.

“Você também Tawan, tenha bons sonhos.”

E ele sobe as escadas do prédio. Eu volto para minha moto, enquanto relembro da nossa conversa enquanto carregávamos o Doutor Nadia de volta ao dormitório…

Eu acho o Tawan adorável. Ele parece amigável, sincero e realista.

Okay, talvez essa seja uma suposição exageradamente apressada, pois a gente ficou sabendo do nome um do outro há pouco tempo. Mas eu sou assim. Eu acredito mais no meu instinto do que na lógica. E meu instinto me diz que ele é um bom homem. Um tipo de amigo que todo mundo deseja em sua vida.

E… é… foi a primeira vez que ouvi os termos passivo e ativo. Então, ativo significa marido e passivo significa esposa. Meu tio disse que ele é o marido e meu tio mais novo a esposa. Isso significa que quando eles fazem…meu tio coloca dentro do meu tio mais novo… certo?

Ai merdaaaaa!!!! Alguém apaga essa imagem da minha cabeça agoraaa, por favor!!!!

Hoje a noite vou ter pesadelos assustadores. Merda, Mork!

Notas de rodapé

Malaeng Por: significa literalmente inseto Por, uma palavra tailandesa para libélula.

Sapodilla plum: Uma fruta de cheiro doce. Nesse contexto se refere ao mal hálito devido a muito álcool. Algumas pessoas comparam ao cheiro forte de Sapodilla plum, um pouco agridoce.