“Tio posso te perguntar uma coisa?”

Eu desço as escadas do segundo andar e encontro meu tio mais novo preparando o café. Eu o ajudo a arrumar a mesa e a distribuir o arroz cozido e macio em três vasilhas, para ele, meu tio e para mim. Enquanto isso, aproveito a oportunidade para perguntar uma coisa que esteve na minha cabeça a noite toda.

“O que foi? Por que você não está no trabalho? Você não está indo muito tarde para estação? Eu achei que você já tinha ido há um bom tempo!”

Ele vira e fatia algumas folhas de aipo para temperar o arroz cozido para ele e para o meu outro tio. Nada para mim, pois ele sabe que eu não gosto e que eu tiraria tudo para jogar fora. Não por que eu não gosto de vegetais. Eu como todos, mas os aromáticos, eles têm um sabor estranho na boca.

“Tá tudo bem, tio. Essa manhã Fueng vai cobrir o meu queue porque ontem ele me fez cobrir ele à noite.”

Eu me sento à mesa e começo a devorar o arroz cozido com a carne de porco picada. Tem muito arroz e só uma pequena porção de carne, mas eu não sei por que está tão delicioso. Meu tio mais novo é tão bom cozinhando.

“Ah entendi, e o que você quer perguntar?”

Ele senta no lado oposto da mesa e começa a comer. Eu ouço o barulho da água batendo no chão do banheiro nos fundos da casa. O que significa que meu tio está tomando um banho tailandês. Okay, tudo bem. Iria ser um pouco esquisito e embaraçoso falar sobre isso caso meus dois tios estivessem presentes. Acho mais fácil perguntar ao tio mais novo enquanto estamos sozinhos.

“Bom, é…”

Ai cara, na minha cabeça eu já sei o que quero perguntar, mas quando eu tento me comunicar com a boca, eu fico tão perdido por onde começar e em como entrar nesse assunto.

“Bom, é… eu, bom…”

Eu continuo gaguejando bom e é até ele me olhar com cara feia.

“Apenas fale, pois eu vou embora assim que terminar de comer.”

“Okay, okay. Droga! É, sobre você e meu tio. Quero dizer, quando vocês, é, bom… quando vocês… como foi?”

Assim que eu completo minha frase, ele para abruptamente de colocar a comida na boca.

“Por que você quer saber sobre isso de repente? Tá tudo bem, Mork?”

“Bom, tio, ontem eu deixei um passageiro no condomínio para um encontro.”

Se eu não sei como formular minhas perguntas, então falo para ele desde o começo, podendo assim entender o que eu tenho a dizer. E talvez contando a história para ele, me fará ter ideia do que quero saber.

“Sim, e o que tem?” ele pergunta.

“Quando eu cheguei ao condomínio, aconteceu da pessoa estar lá do lado de fora esperando por ele.”

“E por que o passageiro e seu encontro te fizeram perguntar sobre eu e seu tio?”

“Porque…”

Droga! Por que isso é tão difícil de dizer em voz alta?

“Por causa do que, besta?”

Dessa vez, a pergunta não é do meu tio mais novo, mas do meu outro tio que acabou de tomar seu banho. Ele entra na sala com um short e uma loincloth tailandesa jogada sobre seus ombros.

“Eu estava escutando você faz um tempo. Muito “Bom” e “é”. O que tem esse passageiro? Por que você está tão abalado e gaguejando?”

Terminando a frase, ele se senta do lado do meu outro tio e começa a comer e me olhar com um olhar determinado a me fazer falar.

Merda! Quando estava só eu e meu tio mais novo, supostamente menos embaraçoso, eu não consegui dizer. E demorei tanto que meu tio mais velho já tinha terminado de tomar banho, fazendo a situação ficar mais difícil. Pobre Mork, pobre eu! Mas isso vai me incomodar o dia todo se eu não tiver uma resposta.

“Bom, quem estava esperando por ele era um rapaz.”

Finalmente, a frase principal saiu, a imagem que me deixou confuso a noite inteira.

“E o que é que tem?”

Parece que meu tio não está entendendo, ele nem levantou o olhar de sua tigela de arroz enquanto perguntou.

“Meu passageiro também era um cara, sabe.”

“E qual o problema com isso? Um cara com outro cara, qual é a estranheza nisso? Se chama gay. Eles são comuns em todos os lugares, até nos dramas da Tv tem alguns. Quem é velha geração agora, eu ou você? Por que sua opinião é tão antiga?”

“Não, tio, quero dizer que esse passageiro parecia com qualquer outro rapaz. Ele não parecia diferente, era normal. Ele não era afeminado ou delicado. Era como os outros homens, exceto talvez por sua aparência jovem.”

“E sobre o que você está confuso?”

Dessa vez meu tio mais novo me pergunta.

“É… para um casal gay, um deles é o homem e o outro é como se fosse a mulher, não é isso? Tipo, como se fosse…”

Esse é o mais longe que eu consigo ir, eu não sei o que dizer em seguida. Parece que minha curiosidade está colidindo com o constrangimento de dizer isso em voz alta. É como se você estivesse em um cruzamento sem nenhum sinal de transito, e a realidade é um policial de trânsito soprando um apito, sinalizando a todos os tráfegos próximos para parar.

“O Mork, eu pareço feminino pra você?”

O tio mais novo abaixa sua colher e pergunta após terminar sua refeição.

“Não. Não parece.”

Eu balanço minha cabeça. Embora ele esteja todo arrumado e barbeado, nada em sua aparência, rosto ou corpo, parece feminino. Nada mesmo. Talvez por ele trabalhar em uma oficina de motos, que requer muito trabalho físico, seu corpo continua tonificado independentemente da idade. Meu tio mais velho está do mesmo jeito. São ambos musculosos. Não da pra dizer que o tio mais novo é afeminado.

“Certo… eu não pareço feminino, mas você sabe muito bem que eu sou a esposa do seu tio.”

Por fim, ele levanta de seu assento e ri, me dando um tapa gentil, mas firme na cabeça, fazendo ela levemente bambear. Ele anda até a geladeira e pega uma garrafa de água, antes de voltar à mesa de jantar.

“Eu, a esposa de seu tio. E alguma parte de mim parece feminina pra você? Se não, qual a diferença entre eu e o seu passageiro?”

“É… sim. Você esta certo…”

Sob esse impacto, eu chego a uma conclusão. O tio está certo. Originalmente, eu pretendia perguntar a ele porque eu sei que ele era a esposa do meu tio, consequentemente, seria capaz de satisfazer minha curiosidade sobre o assunto. Eu sempre soube que eles eram um casal gay. Mas me mantive cego diante da evidencia que meus dois tios não são afeminados.

Se o meu tio mais novo, que não é nem um pouco feminino, pode ser a esposa do meu tio, então por que o passageiro super curioso não pode ser também a esposa daquele cara?
Não tenho certeza se é a resposta do meu tio ou o impacto que me atinge tão claramente.

“Isso satisfaz sua curiosidade?” meu tio pergunta.

“Sim, tio… claro.”

“Então, vá trabalhar já! Vá dirigir seu mototáxi. Eu e meu querido precisamos abrir a oficina também. Eu não acredito nisso! Eu criei uma pessoa ou um búfalo? Que tolo!”

Eu levanto da mesa e lanço a ele um olhar travesso.

“Se o seu sobrinho é um búfalo, então, isso significa que você é um búfalo também?”

“Mork! Seu merdinha! Quer que eu chute seu traseiro essa hora da manhã como oferenda para o sol?”

Ele fica furioso e grita comigo, mas eu sei que ele não está bravo. Gritando, brincando e sendo respondão são como demonstramos afeto em nossa família, um lar de três: meu tio, o tio mais novo e eu.

…………

Certo

Meu tio é irmão mais velho da minha mãe.

Mas meu tio mais novo não é irmão caçula do meu pai.

Esse meu tio mais novo é namorado do meu tio.

Ou… para ser específico, ele é “esposa” do meu tio.

Até onde eu sei… Meus tios começaram a morar junto desde muito jovens.

Eles eram sênior e júnior na mesma universidade. Meu tio completou seu programa vocacional superior, enquanto meu outro tio completou seu programa vocacional. Então, eles se mudaram juntos para Bangkok para procurar emprego. Eles dividiam um quarto em um apartamento para economizar dinheiro.

Morar junto no fim se tornou viver junto.

E eles estão juntos desde então.

O tio disse que não gostava quando eles trabalhavam e tinham horários diferentes. Então, depois de dez anos trabalhando separadamente, eles investiram uma quantia em dinheiro no aluguel de uma loja e abriram uma oficina de conserto de motos. A garagem dependia principalmente de trabalhos constantes dos motos táxis da região. (Esse é outro mistério; meu tio estudou mecânica e meu outro tio estudou eletrônica; então nenhum deles possuía certificado em mecânica automotiva; mesmo assim eles abriram e mantiveram uma oficina).  E foi assim que meu brother Fueng se tornou conhecido dos meus tios.

Depois de um tempo, eles tinham uma quantia considerável de dinheiro e meu tio decidiu comprar dois andares da loja que eles estavam alugando e fez a parte de baixo a oficina, também vendendo peças para motocicletas, enquanto a parte de cima se tornou sua casa. Mais tarde, quando me mudei para Bangkok com Fern, eles me deixaram morar no terceiro andar, dizendo que eles eram muito preguiçosos para subir até lá e fazer com que esse andar fosse útil.

De fato, não sou o único que sabe do relacionamento entre meus dois tios. Seus funcionários da oficina também sabem. Todo mundo sabe, incluindo a vizinhança. Todos eles sabem que meus tios têm vivido como conjugues há um bom tempo.

Meu tio era um homem muito atraente quando era mais jovem… ele mesmo me disse.

Ele disse que antes de ter um relacionamento sério com meu tio, teve muitas mulheres em sua vida. Como ele é um garoto do sul, tem pele bem bronzeada características faciais diferenciadas e um corpo bem definido por malhar em um pátio de madeira ao lado de sua casa, era natural que as mulheres se atraíssem por ele.

De fato, o tio mais novo não era muito diferente dele.

Assim que eles começaram a sair, o mais novo parou de paquerar por aí. Enquanto meu tio mais velho levou alguns anos, depois de entrar nesse relacionamento, para deixar esse habito. Meu tio me disse que o fez chorar muitas vezes. (Francamente, eu não consigo imaginar ele chorando. Eu nunca o vi chorando então está além da minha imaginação. E teve vezes em que eles quase terminaram).

Mas apesar disso, eles ainda continuam juntos, encarando os bons e os maus momentos. Meu tio mais velho disse que sabia desde o começo que ele era o cara certo, aquele que seria seu companheiro, seu parceiro para vida, até que a morte os separe. Se há um problema, então você deve resolvê-lo, não correr do problema e deixar tudo acabar.

Para duas pessoas ficarem juntas, depende de muitos fatores.

E você precisa vencer muitos desafios para ficar junto.

………..

Eu me recordo em específico de uma ocasião em que falei com meu tio.

“Mas pra você e Fern, é diferente!”

Ele disse pra mim semanas depois de eu terminar com a Fern.

“Como assim diferente, tio?”

“Não consigo ler e não consigo ver?”

“Não consegue ver o que? Como posso entender se você está sendo vago?”

“Eu não consegui ver o companheirismo que seguiria com vocês até envelhecerem. Francamente, eu não vi como vocês se tornariam parceiros para a vida. Eu percebi isso desde a primeira vez que você nos apresentou ela para mim e seu outro tio. Eu até falei pra ele que vocês terminariam um dia.”

Eu escutei silenciosamente seu ponto de vista que ele compartilhava da perspectiva de um adulto.

“Para um casal ficar e envelhecer juntos, eles precisam de mais do que amor e compaixão. Eu ouvi uma música que meus empregados estavam escutando e que dizia que os amantes devem ser solidários um com o outro. Tipo, aaarrgh! Eu queria queimar aquele rádio. Eu estou com seu tio há mais de dez anos, se só tivéssemos amor e compaixão um pelo outro, nós teríamos nos separado há muito tempo.”

“E do que mais nós precisamos?”

Honestamente, naquela época eu não queria saber. A pergunta escorregou automaticamente da minha boca.

“Eu não consigo dizer também. Eu só sei que requer muito mais que isso, não só amor e compaixão.”

Desde então, eu fiquei com isso na cabeça.

Para passar juntos pelos bons e maus momentos, apenas amor e compaixão não basta.

……………

Minha mãe não fala sobre isso.

Quero dizer, sobre meus dois tios.

Bom, na verdade, minha mãe fala sobre eles um pouco, enquanto os pais dela agem como se seu filho mais velho já tivesse morrido. Eles não falam e nem perguntam sobre ele. Eles quase nunca olham pra ele quando ele volta para casa para fazer uma visita.

Quando era mais novo, minha mãe me contou que eles eram amigos e dividiam uma casa em Bangkok. Eu não sabia o que isso significava. Eu pensei que era muito legal adulto poder escolher dividir a casa com amigos. Eu pensava tipo “Nossa, isso é incrível! Eu invejo vocês por poderem viver na mesma casa!”

Você entende o que eu estou querendo dizer? Quando somos crianças, queremos brincar com nossos amigos o tempo todo, né? Mas quando a escola terminava a noite, nós tínhamos que voltar pra casa para ficar com nossos pais e irmãos, com quem às vezes, nós temos discussões frequentes. A ideia de adultos poderem escolher seus próprios amigos para dividir uma casa realmente me atraiu e eu achava meu tio e meu tio mais novo muito descolados.

Na frente do vô e da vó, minha mãe não falava do meu tio. Evidentemente, durante o feriado de Songkran, quando o tio e o tio mais novo frequentemente visitavam suas cidades natais e parentes, ambos tinham que dormir na casa do meu tio mais novo e não na casa dos meus avós (que também é minha casa). E durante sua visita, eles sempre passavam o tempo comigo e com a minha mãe, e nunca com meus avós.

Eu mais jovem vi isso, mas nunca questionei. Talvez isso tenha acontecido por causa da inocência infantil que frequentemente falha em notar o elefante na sala. Mais importante ainda, eu nem senti que isso é um problema. Às vezes, eu gostaria de ter de volta minha perspectiva de quando era criança.

Enquanto eu fui ficando mais velho, eventualmente acabei descobrindo que o relacionamento deles não era só uma simples amizade.

Isso não estava totalmente correto. Eles continuam sendo amigos. Mas tem algo a mais entre eles, um status que não precisa ser explicado. Que eu automaticamente reconhecia e entendia.

Dessa forma, a relação de parceria do mesmo sexo entre meus tios fez parte da minha vida conforme eu fui crescendo. Eu sinto como se meu tio mais novo fosse meu próprio sangue, um parente mais velho. Às vezes eu até me esqueço de que eles são cônjuges e que meu tio mais novo não é meu parente de sangue.

Isso tem sido tão natural pra mim que não tenho mais consciência sobre esse assunto, por isso a surpresa ao notar o passageiro e seu namorado.

…………..

À noite, na estação de moto táxi, eu tive um tempo livre e procurei Fueang, que tinha acabado de perder uma partida no jogo de xadrez e se sentou enquanto outros jogadores estavam se enfrentando. Então eu levo pra ele o que está me irritando.

“Hey, irmãozão Fueng!”

“Ei, e aí Mork! Quer jogar essa merda contra mim?”

“Não cara, eu tenho uma pergunta.”

Eu abaixo minha voz mesmo não sendo necessário porque todo mundo ao redor está focado na nova partida de xadrez. Ninguém liga para minha conversa com o Fueng.

“Bom… O que é a senhorita Ai… O que ela é pra você?”

“O quê? Ela é minha namorada, ou você pode dizer que ela é minha esposa, só não temos uma certidão de casamento. Qual é da sua pergunta estranha? Hein, Mork?”

“Hum, bom, a senhorita Ai é uma…”

Eu involuntariamente abaixo meu olhar. Eu me sinto um pouco envergonhado em dizer a palavra em frente ao Fueng por ele ser namorado dela, mesmo que isso seja um fato. Então eu omito a palavra e deixo minha frase se completar por si mesma com a palavra não mencionada pertencendo ao fim.

“Ela é transgênero. Apenas diga cara. Isso é um fato. Não vou ficar ofendido.”

Ele declara de maneira prosaica, como se isso não tivesse nenhum significado emocional pra ele. Eu não sei como ele realmente se sente, mas quando olho pra ele novamente, parece não estar afetado. Ele tem uma expressão e um tom de voz neutro.

Talvez eu não seja o único que comentou ou perguntou sobre sua namorada e sobre ela ser transgênero.

Talvez ele já tenha passado muito por isso.

“Mesmo ela sendo transgênero, você ainda a ama?”

“Que diabos? Que besteira, seu esquisitão. Se eu não a amasse, porque eu chamaria ela de minha esposa e iria todos os dias deixar ela na escola de inglês? Você deveria perguntar se ela me ama. Sabe, esse tipo de pessoa e eu, que sou só um piloto de moto táxi.”

“Droga, e quem precisa perguntar isso? Ela é doidinha por você.”

“Então eu sou o homem mais sortudo do mundo porque a pessoa que eu amo me ama muito!”

Ele diz, sorrindo de orelha a orelha, vai até o cooler compartilhado da estação e pega duas latas de café antes de me jogar uma. Ele toma um gole de sua lata. ”Aqui, pega uma! É por minha conta.”

“Valeu, mano!” eu pego e faço uma saudação tailandesa.

“Esse é seu tipo? Quero dizer, transgêneros.”

Fueng para de beber seu café e franze suas sobrancelhas para mim.

“Cara, por que você está tão estranho hoje? Por que perguntar? Você tem me visto sair com a Ai faz um bom tempo.”

Por um bom tempo? Foi só um ou dois meses, não foi? Uh, eu não estou comentando isso em voz alta, pois a lata de café que ele me deu ainda está em minhas mãos e eu me sinto obrigado a pagar sua gentileza mantendo minha boca grande fechada.

“Bom… eu só estou curioso. Eu só estou querendo saber se o amor entre dois caras pode durar bastante.”

“O que… olha só para seus dois tios. Eles estão juntos por décadas. Por que diabos você está me perguntando? Vá perguntar a eles.”

“É diferente, cara! É uma história antiga, mas a sua é nova. Eu acho que os casais de antigamente não são iguais aos casais de hoje em dia. Eles não podem ser comparados pelos mesmos padrões. Por isso estou te perguntando.”

“Bom, já que é isso… não é um amor entre dois caras, é um amor entre duas pessoas.”

Fueng toma o último gole de sua lata e joga na lata de lixo com uma certa precisão.

“A senhorita Ai é só uma pessoa. Eu sou, também. Nós somos duas pessoas que amam uma a outra, não dois homens. E francamente, para mim, Ai é uma mulher.”

“É que ela tem uma aparência feminina.”

Eu argumento.

“Sim, certo. Eu não sei se continuaria apaixonado por ela se ela não estivesse vestida como uma mulher. Eu não posso dizer merda que nem nas novelas como eu continuar amando ela, não importa sua aparência.”

Ele olha para o relógio… são quase cinco da tarde.

“Vou ir lá pegar ela.”

Eu sorrio e assinto.

“Eu acho, que mesmo que a senhorita Ai não estivesse vestida de mulher, você ainda se apaixonaria por ela um dia.”

Ele assente antes de colocar seu capacete de segurança.

“Gênero é uma ilusão, Mork. Eles podem diferenciar o lado de fora, mas por dentro, eles são quentes do mesmo jeito.”

“Noooossa, cara! Que pervertido!”

“Eu me referia ao coração, C-O-R-A-Ç-Ã-O. Seu mente suja!!! Você é que é o pervertido. Sem mulher por um bom tempo e você já está sedento, não é? Olha lá, a moça da barraca de salada de mamão está afim de você, seja legal e invista nela.”

Eu balanço minha cabeça rapidamente.

“Nããããoo, cara. Eu não quero uma obrigação.”

Ele desdenha balançando os ombros.

“Não estou falando de esposa. Eu estou falando só de uma transa de alguns minutos. Você não precisa amar ou se comprometer.”

Quando ele está quase ligando o motor eu me lembro de fazer uma ultima pergunta.

“Ei ei ei, cara. Deixa eu perguntar uma última coisa.”

“ah mano, o que é agora? Pergunte rápido antes de eu ir buscar minha esposa.”

“Quando você está fazendo aquilo, você consegue chegar lá, não é? Bom, eu quero dizer, você…”

Uh… Você sabe o que quero dizer, certo?

A palavra não mencionada na minha pergunta.

“Quando é na hora, sim eu consigo. Eu diria que o sexo é fluido. Quando você está afim, você está pronto para qualquer coisa.”

“Então você está querendo dizer que se eu fizer isso com um homem, talvez eu me sinta okay também?”

“Coisas assim, você tem que tentar por você mesmo. Eu não posso falar por você, mano.”

E lá vai ele, me deixando para trás para procurar por uma resposta sozinho …

Ei espera… são só 17h00, mas o nosso queue continua correndo até as 21h00. Além do mais, hoje é o dia dele de ficar até as 22h00. Mas ele já foi embora para pegar a sua esposa, isso significa…

“Que merdaaaa! Fueng tá maluco? Volta aqui! Não jogue o seu trabalho pra cima de mim assiiiiiiimmm! De jeito nenhuuum!

……….

21h50

Só faltam dez minutos para acabar o expediente

Eu começo a me preparar para ir pra casa, dobrando e colocando meu uniforme dentro da mochila e esvaziando o gelo derretido do cooler. Então, eu me preparo para trancar a estação, porque provavelmente não terá passageiro nos últimos dez minutos de expediente.

“uh… Você ainda não fechou, não é?”

Antes que eu possa terminar meu pensamento, um passageiro me interrompe. Eu preciso parar de prever as coisas, pois sou azarado. Nunca as coisas acontecem do jeito que eu planejo.

“Nós estamos fechados, mas eu posso deixa-lo. Já estou indo.”

Eu me viro para responder e… o que? É o Físico esquisitão e curioso que o capacete balança quando assente. (Esse é o apelido que eu dei a ele)

“Ah é você…”

“Sim, sou eu de novo. Para o condomínio Baan Klang Soi, por favor.”

“Sim, senhorrr.”

Eu entrego a ele o capacete.

“Uma mão na barra e a outra no ombro, como da última vez.”

“Eu sei.”

Eu espero ele sentar na garupa e prender sua mão no meu ombro para poder ligar a moto.

“Você está voltando tarde hoje.” eu observo.

“Eu deixei o trabalho tarde hoje. Dia agitado.”

Eu assenti. “Entendi. É a vida corrida de médico.”

“Ei… como você sabe que eu sou médico?” Ele pergunta.

“Por causa desse casaquinho branco que você está usando.”

“Ahh… é chamado de vestido médico.”

“Sim, isso mesmo. Seu vestido médico.”

Eu saio lentamente. São quase 22h00 agora. E desde quando os prédios ao redor do começo dessa rua são só prédios comerciais, enquanto o resto se concentra prédios residenciais, nessa hora do dia não tem quase nenhum tráfego. E hoje, só tem nós dois na minha moto. Então eu aproveito o tempo para pilotar devagar e conversar com ele.

“Que tipo de doutor você é?”

“Medicina interna.”

Sua resposta me deixa sem saber como continuar a conversa. Eu só conheço termos como, cirurgião, oftalmologista e examinador de autópsia.

“Nós tratamos principalmente enfermidades que precisam de medicação. Tipo diabetes, doenças do coração e doenças do rim.”

Ele me explica, talvez porque ele tenha notado que eu fiquei quieto.

“Ohh… eu achei que doenças do coração só eram curadas cirurgicamente.”

“Não, muitas delas são curadas com medicação.”

“Ah, eu esqueci. Eu sou um piloto de moto táxi.”

“Hahahahah! Certo! Eu sei disso. Você está brincando, não é?”

“Se você está rindo, então sim, eu estou brincando, doutor.”

Nós chegamos em frente ao condomínio do namorado dele, então eu estaciono minha moto. Como de costume, ele espera até eu desligar o motor antes de deixar a garupa. Ele me devolve o capacete e ao mesmo tempo me paga com duas notas de 20 baht.

Eu me atrapalho procurando em meus bolsos uma moeda de 10 baht para voltar o troco a ele.

Ele balança a cabeça. “Fique com o troco.”

“Obrigado, doutor! Tenha bons sonhos.”

Eu sorrio para ele, mas ele torce o nariz pra mim.

“Primeira vez que eu ouço um moto táxi desejar ao seu passageiro bons sonhos.”

Ele comenta.

“Bom… é porque você é meu último passageiro da noite. Já são 22h00. Considere isso um serviço premium, doutor, te deixar na frente do condomínio e ainda te desejar bons sonhos. Normalmente eu não aceito passageiros tão tarde assim. O movimento de clientes cessa geralmente depois das 21h30.”

“Então… é melhor você se acostumar com isso. Nós vamos nos encontrar a noite com muita frequência.”

“Siiim, senhor, doutor. Vou tentar me acostumar com isso.”

Quando eu sorrio para ele de novo, suas sobrancelhas começam a se desfranzir. Então, sua boca começa a se curvar em um sorriso para mim.

“Muito bem, tenha bons sonhos também, Sr. Moto táxi.”

………..

Notas de rodapé

Banho em estilo tailandês: o banheiro tradicional tailandês geralmente tem um recipiente de água ou um grande container, que estoca agua limpa para uso futuro. Para tomar um banho tradicional tailandês, a pessoa fica parada e usa um pequeno recipiente parecido com uma tigela, recolhendo repetidamente água do recipiente maior e jogando nas partes do corpo em que deseja.

Búfalo: na cultura tailandesa, figurativamente uma pessoa idiota.