Eu bocejo…

Na verdade, eu bocejo toda manhã. Não importa o quão longo, curto ou eficiente o nosso sono é, nós continuamos bocejando toda manhã. Eu aprendi sobre o mecanismo de bocejo durante o segundo ano de faculdade, mas já esqueci por que bocejamos.

Para mim, isso significa simplesmente que meu relógio biológico está me dizendo que é hora de tomar café.

Como minha primeira rotina matinal no trabalho, eu passo o elevador do lobby e a cantina, chegando à única e estimada cafeteria do hospital.

Nessa hora da manhã, nós geralmente não vemos pacientes ou estranhos no local. Só tem uma galera misturada entre doutores residentes de anos diferentes, cada um vestindo seu uniforme médico. A cafeteria é quase como altar no qual todos os médicos devem visitar e homenagear todos os dias antes de irem para suas rotinas diárias de trabalho. Nós louvamos a sagrada cafeteria, a divindade da cafeína nos abençoa com energia vital para sobreviver no dia e no trabalho.

“Onde você esteve na noite passada Tawan? Por que não estava no dormitório?”

Me assustei com o berro que Nadia deu bem do meu lado. Tão cedo e sem café no meu sistema, minha consciência continua flutuando ao redor como se minha alma ainda não tivesse voltado inteira para o meu corpo, isso me faz assustar facilmente. Eu lentamente me viro para ele, esboçando um sorriso.

“Uh… por que pergunta?”

“Bom, na noite passada eu fui ao seu quarto e você não respondeu quando eu te chamei. Eram apenas oito da noite e a luz já estava apagada, então eu pensei que talvez você não estivesse lá.”

“Oh, você queria me ver? Precisa de alguma coisa? Se quiser falar agora, estou livre. Eu não tenho muita emergência na minha ala agora de manhã.”

Com sorte, ele não iria perceber que estava evitando suas perguntas iniciais.

“Não tente mudar de assunto. Onde você estava na noite passada?”

Não tive sorte. Nadia me pressiona para uma resposta, parecendo mais preocupado com esse assunto do que o que fez ir à porta do meu quarto na última noite.

Bom, cedo ou tarde ele vai descobrir de qualquer maneira, como o Nadia é meu melhor amigo número um de todas as horas. É só uma questão de tempo. Melhor já contar para ele agora.

“No condomínio do Senior Por.”

Eu sussurro entre os dentes, mantendo o volume baixo e só audível para nós dois.

“O que você disse? Eu não consegui ouvir.”

Aparentemente, não foi alto o suficiente. Nadia franze o cenho, inclinando-se em uma orelha.

“Eu. Fui. Passar. A. Noite. No. Condomínio. Do. Senior Por.”

Eu respondo mais baixo dessa vez, mas diretamente na orelha dele.

Mesmo a cafeteria estando cheia, ninguém presta atenção na conversa dos outros. Eles estão focados em suas conversas uns com os outros ou no telefone com a enfermeira na enfermaria. E aqueles que não estão falando, estão concentrados nas telas de seus celulares.

Quase não há necessidade de eu sussurrar para Nadia.

Mas, não sei, talvez eu esteja com medo de ser ouvido ou descoberto sobre o que há entre mim e meu querido Por. Pode ter uma razão, mas eu não consigo entender.

“Uou, e você fez? Opss, desculpa, esqueci.”

“Não, tudo bem. Não me importo de você perguntar.”

Dou um tapinha no ombro do meu melhor amigo.

“Quero dizer, eu esqueci que não deveria ter perguntado por que só tem uma resposta. Certamente você fez, impossível não ter feito. Você foi até a casa dele, duh!”

Ele não só fala como também me dá um beliscão tão doído no meu braço que eu paro de ter sonolência ali naquele momento.  Estou totalmente acordado sem precisar de café.

“Aiii, isso dói!” e dou um golpe para tirar a mão de Nadia do meu braço. Ele deveria ter me beliscado de um jeito mais delicado, mas sua força continua igual a de um grande homem adulto. Eu passo a mão no lugar do beliscão e me pergunto se formará um hematoma.

“Enfim… foi bom?” Antes, Nadia estava com uma voz sonolenta, mas assim que eu contei que fui a casa de Por, sua sonolência passou magicamente. Agora ele parece cheio de curiosidade.

Eu não digo nada, finjo não ouvir a pergunta, e me encaminho para pedir meu café.

“Um Americano quente, por favor. Sem açúcar.” Eu dou ao vendedor o dinheiro certo e não pego a moeda que ele me dá como troco. Então Nadia vai pedir rapidamente o seu, antes de me seguir para o fim do balcão da cafeteria, onde esperamos para pegar o nosso café.

“Você não vai me responder?” Nadia me pressiona.

Eu dou de ombros, continuo não cedendo à sua curiosidade.

Mas isso não o detém por muito tempo. Ele agarra meu colarinho e abaixa, revelando meu hematoma arroxeado, no pescoço perto da nuca, duas marcas consideráveis que eu não esperava que estivessem tão obvias e reveladoras. ”Aha! Viu, sabia que ia ter uma marca! Tawan, seu safado! Você tem um marido.”

Eu juro, mesmo o Nadia sendo meu melhor amigo, neste exato momento eu estou realmente irritado a ponto de jogar ele dentro da lixeira molhada no fundo da cafeteria.

“Shhhh, não fale alto, as pessoas vão te ouvir.”

“Droga! Quem vai ouvir? Olha ao seu redor, todos estão tipo zumbis sem café. Ninguém liga pro que estamos falando. Bom, me deixa perguntar: tem alguém aqui que está totalmente acordado?”

Eu me viro e olho ao meu redor. Sim… Nadia está certo. Como eu disse, a essa hora da manhã, só médicos residentes vem à cafeteria, e nenhum está acordado. E parece mesmo que ninguém está nos ouvindo.

“O café de vocês está pronto. Americano, sem açúcar para o Dr. Tawan, e Latte, com bastante açúcar para o Dr. Not.”

O barista nos chama no fim do balcão. Nadia o olha de lado tão ameaçador que eu tento me esquivar mesmo ele não tendo sido direcionado para mim.

“Aff, eu te disse que meu nome agora é Nadia. Não me chame de Not. Você continua esquecendo!”

Nadia responde de maneira ácida enquanto pega seu café, mas continua piscando seus olhos com um olhar pomposo para o barista, que discretamente joga de volta um beijo de maneira bastante paqueradora. A interação deles é tão harmônica que eu quero apoiar meu copo de café em algum lugar e bater palmas para eles.

Em vez disso, eu seguro o meu café e sigo Nadia para fora do local.

“Hey, Not, oops… Nadia.” Eu rapidamente me corrijo quando ele se vira e me lança um olhar mortal.

“Você tem brincado com esse barista há muito tempo, desde quando você era um estudante de medicina. Agora você retornou pra cá… não é hora de você dar um próximo passo?”

“Ah, não, obrigado! Você está louco? Ele é o barista.”

Nadia revirou seus olhos, tomando um gole de seu café, caminhando em direção ao elevador do lobby. Nós passamos pela cantina sem pensar em um café da manhã, pois já é tarde para uma refeição. A escalação apertada só nos permite tomar um café para manter nossas almas vivas na manhã e depois outro mais tarde. Entretanto, nós temos que rezar para termos tempo suficiente por volta do meio dia para escapar e assim fazer a primeira refeição do dia.

“Aww, por quê? O que tem de errado em ser um barista?” eu pergunto.

Nadia para e se vira para me olhar, com os olhos semicerrados. “Se eu sair com um barista, onde você acha que eu e ele estaremos daqui a três, quatro anos? Quero dizer, nosso futuro. Que progresso isso vai ter?”

Uh… Como eu respondo essa pergunta? Eu não tenho nenhuma resposta pra ele, nenhuma mesmo. Então eu só fico em silencio e espero ele continuar.

“Nós somos adultos, você sabe. O tempo de sair, flertar, bagunçar ou só ter um ficante já passou. Agora nós precisamos sair e encontrar alguém para ser o nosso parceiro para a vida, assim como você e o Senior Por.”

“Como eu e o Senior Por?…”

Eu repito a ultima frase que Nadia disse e ele assente.

Nós estamos saindo pela porta quando meu bonitão Por aparece, indo para a cantina. Ele sorri pra mim e eu sorrio para ele. Na fração de segundo em que passamos um pelo outro, eu sinto a sensação de uma onda de calor e formigamento semelhantes a eletricidade no meu pescoço, nas marcas que ele deixou em mim.

“Você parece muito feliz.” Nadia sorri para mim e move suas sobrancelhas em direção ao Por que agora já está na cantina.

“Um.. sim, claro. Ele é o homem dos meus sonhos.” Eu respondo.

“O homem dos seus sonhos? Então, se ele está aqui com você agora, isso significa que seus sonhos se tornaram realidade ou que você está sonhando?”

Nádia me provoca. Mas fico pensativo. Ah, certo… Se ele é o homem dos meus sonhos, e ele está do meu lado, isso significa que eu estou sonhando ou ele saiu dos meus sonhos para poder ficar comigo?

Se ele deixou os meus sonhos para poder viver comigo, então tudo bem. Mas se eu estou sonhando, tudo pode sumir de repente quando acordar. Certo?

“Ei tá acordado? O elevador chegou.”

De novo, Nadia me traz de volta do meu transe.

“Você está de plantão hoje?” Nadia pergunta ao entrar no elevador. Ele prontamente pressiona os botões, nove para sua Ala Pediátrica e oito para Medicina Interna, enfermaria feminina.

“uh… não.”

“Aaaah, por quê? A escalação que você me passou diz ao contrário! Eu achei que iriamos jantar juntos a noite.”

“É? Você está de plantão hoje?”

“Claro que estou! Por qual outro motivo iria falar isso?”

“Hum… eu troquei minha escalação com outra pessoa. Hoje eu vou ficar com o meu amor.”

Eu respondo timidamente.

“Okaaayyyy! Recém-casado.”

Eu já sabia que Nadia iria revirar os olhos. Mas continua sendo engraçado vê-lo fingindo indignação em relação a mim.

Ding… O elevador para no oitavo andar de Medicina Interna, ala feminina regular.

Eu saio do elevador.

“Hey Tawan! Agora que você tem um namorado não se atreva a se esquecer de mim. Arrume tempo para jantar comigo também!”

Ele ordena antes da porta começar a se fechar.

Eu mostro minha língua pra ele.

“Quem pode se esquecer de um amigo como você? Seu tolo idiota!”

A risada de Nadia escapa pelo vão entre as portas do elevador antes delas se fecharem completamente. Eu sorrio e balanço a cabeça. Mesmo eu tendo o cara dos meus sonhos como namorado, não tem como eu não arrumar um tempo para o meu querido amigo. Quem poderia esquecê-lo?

Eu me lembro do primeiro dia em que vi Nadia…

Uh… Quando ele ainda usava seu nome antigo, Not.

………..

“Ei. Ei você.”

A pessoa do meu lado me cutuca gentilmente.

Eu me virei para olhar. Ele estava vestindo um uniforme com um short cáqui. Seu cabelo estava bem cortado, parecendo que ele estava em um livro de regras para meninos do ensino médio. Na nossa fila em especifico, havia dez estudantes esperando para se apresentar. Nós éramos os únicos garotos entre eles. O restante da fila eram todas garotas com seus uniformes de cores variadas de saia. Algumas azuis, outras vermelhas e… roxo? Essa foi a primeira vez em que vi um uniforme roxo.

“Uh… sim? E aí, tudo bem?”

Eu respondo brandamente, quase sussurrando, porque todos ao redor estavam quietos. Todos os noventa estudantes estavam ouvindo as instruções sobre o procedimento de avaliação física e psicológica para os calouros da Faculdade de Medicina. Além disso, os instrutores que estavam falando não pareciam muito amigáveis.

“Você ouviu que durante o exame psicológico eles vão desqualificar todos os caras afeminados, as Maria macho, gays e lésbicas?”

“Mas como eles saberiam se somos mesmo ou não?” é muito meu hábito responder uma pergunta com outra pergunta.

“Eu acho que eles conseguem perceber através das nossas expressões faciais e linguagem corporal. Eu ouvi que eles têm professores psiquiatras experts como examinadores.”

“Psiquiatras não podem ler mentes. Como eles saberiam o que estamos pensando?” eu respondo pensando no que o novo colega disse.

“Eu acho que eles conseguem ler mentes. Estou com medo. E se eles me desclassificarem?” e isso me explicou o porquê do meu novo amigo estar fazendo aquelas perguntas. Eu sorri gentilmente para ele, esperando que isso fosse acalmar suas emoções.

“Eu ouvi isso também, mas eu não acredito.”

“Por quê? Por que você diz isso?” ele perguntou.

“Durante o Primeiro Encontro de Estudantes de Medicina eu perguntei aos veteranos, e eles disseram que isso é besteira. Uma total mentira.”

Na verdade, eu menti. Eu só queria que ele se sentisse aliviado. Foi terrível começar uma amizade com uma mentira, mas eu tinha boas intenções. Então, espero que isso não conte.

“Hã? Você foi ao primeiro encontro de calouros de medicina? Ele arregalou os olhos.”

Eu assenti. “Sim. por quê? Você não foi?” Eu tentei me lembrar de seu rosto, mas tinham tantos estudantes calouros de medicina de vários institutos ao redor do país, por volta de mil estudantes. A chance de eu ter visto ele é pequena, especialmente quando nos separamos em grupos com pessoas de outras universidades.

“Eu não fui. Meus pais me levaram para uma viagem para comemorar a admissão.”

“Ah… sim. Por isso que eu não te vi antes.” Eu assinto lentamente.

Que maravilha! O presente que eu ganhei depois de entrar para a faculdade de medicina foi um kit com canetas e outros itens de papelaria. Sim, você não leu errado. Só um kit de papelaria. Só isso. Talvez meus pais não estivessem mais tão animados sobre um filho se tornar estudante de medicina desde que meu irmão mais velho, Saeng, foi admitido na Faculdade de Medicina, a melhor do ranking na Tailândia. E então eu, Sr. Tawanork, fui o segundo filho a se tornar um estudante de medicina.

Para mim, entrar na faculdade não causou alegria, mas sim um alívio. Pelo menos eu estava vivendo de acordo com os padrões que meu irmão havia estabelecido anteriormente. Agora, o fardo caiu sobre os ombros de “Daonuea,” nosso irmão mais novo, cuja vez de fazer o exame para entrar na universidade será daqui a três anos. Minha próxima responsabilidade é completar os meus estudos.

“Então, isso significa que… mesmo eu sendo afeminado eu vou ser aceito, certo?”

Ele repetiu sua pergunta, na qual eu assenti e sorri.

“Obrigado. Meu nome é Not, e o seu?”

“Meu nome é Tawanork.”

Not olhou para o nome no meu uniforme.

Nas costas, tinha bordado meu nome inteiro “Tawanork Tisawong.”

“E seu apelido?” Ele perguntou.

Eu balancei minha cabeça negativamente “Não tenho. Meus pais não me deram um.”

“Estranho…” ele franze as sobrancelhas “Que tal eu te chamar de Tawan como apelido? A partir de agora você é Tawan.”

“Ei, vocês dois aí! Por quanto tempo vocês vão continuar conversando?”

O instrutor de olhar rigoroso nos deu um aviso severo. Meu novo amigo e eu nos sentamos direito e nos comportamos. Mas secretamente nós trocamos um olhar de canto de olho, segurando o riso.

Minha amizade com Not começou assim.

Nós fomos o primeiro amigo um do outro na Faculdade de Medicina.

Durante seis anos de estudo, nós tivemos sorte de sermos escalados para a mesma rotação na maioria das vezes. Ainda por cima, nós éramos colegas de quarto no dormitório. Nós ficávamos juntos, exceto durante os eventos esportivos. Ele preferiu se juntar as Cheerledears, então nós seguimos caminhos diferentes no esporte. Para mim, eu estava mais afim de participar da equipe de assistência porque eu sabia que a maioria das pessoas odiava as atividades, mas era uma equipe importante apesar disso.

E foi assim que encontrei o Senior Por, como eu mencionei anteriormente.

E foi por isso que Not perdeu essa parte da minha história.

……..

“Junior Tawan.”

Senior Nok, uma residente do terceiro ano que também era chefe dessa ala me chama assim que me vê entrando na enfermaria.

Pobre de mim… Eu cheguei depois da chefe residente! Será que ela vai me dar um puxão de orelhas?”

“S-sim, chefe?”

“Alguém me contou que você está saindo com o Sênior Por, do departamento odontológico. Isso é verdade?”

Uh… Essa não é uma pergunta que eu teria adivinhado. Não sei que cara eu faço. E talvez por eu estar parecendo uma estátua de cera sem vida, ela estala os dedos em minha frente para chamar minha alma de volta ao corpo.

“Ah, sim. Sim, isso mesmo. Eu estou saindo com ele, mas…” eu abaixo minha voz, ”nós não estamos falando isso para os outro, porque eu não quero que ele tenha uma reputação ruim. É contra a regra relações amorosa no local de trabalho.”

“É besteira! Que regras? Ele está na divisão odontológica do hospital, enquanto a gente está no hospital universitário, nós estamos sob administrações diferentes. Você não está quebrando regras.”

Um… Eu sei, chefe. Eu só estou achando uma desculpa para você não me interrogar sobre isso. Eu não quero muitas pessoas falando sobre mim e Por.

“Hey, eu estou torcendo por você. Eu sou fã de yaoi desde os anos 90. Eu adoro quando os rapazes são amorosos um com o outro.”

Ela termina e sai para olhar os gráficos que pertencem a outra Linha da enfermaria. Eu aproveito essa chance para correr para o meu lado da ala, pegando as fichas e colocando-as no carrinho redondo da enfermaria, e chamo os estudantes do quarto ano para reunir e se prepararem para o próximo turno da ala.

“Oh, certo! Tawan, mais uma coisa.”

A chefe Nok tem mais uma coisa a dizer. Ela marcha até meu lado da enfermaria. Não estou assustado dessa vez. Eu dou a ela um sorriso murcho, rezando para que ela não venha dizer nada sobre o Senior Por e eu na frente desses alunos do quarto ano porque se eles souberem de alguma coisa, isso vai se espalhar por todo o hospital.

“Vai acontecer a cerimonia do centésimo dia em breve. Vocês e o pessoal do primeiro ano vão preparar uma apresentação, okay?”

“Oh… okay. Sim, chefe!”

“Você é o cabeça do time, Tawan. Por favor, ganhe algum prêmio! Nosso departamento médico não ganha nada há anos. Aqueles ortopedistas estranhos gostam de mandar homens bonitos e seminus para o palco para performar Likay e sempre ganham o premio.”

“Ah, okay chefe.” Eu? O cabeça? Que diabos eu vou fazer? Mesmo eu estando envolvido nos eventos da faculdade, eu estava na equipe de apoio, se você consegue me entender. Eu nunca fiz nada que exigisse criatividade, pelo amor de Deus!”

“Mas esse ano, nosso departamento médico ganhou muitos bonitões.” Sua voz está cheia de esperança e satisfação. “Nós temos que ganhar algum premio. Antes que termine minha residência, nós temos que ganhar um prêmio GotTalent. Eu coloco minhas esperanças em você Tawan.” Ela conclui e vai até a outra equipe.

Oh, certo. O tempo voa. Já é o quarto mês da nossa vida de treinamento para especialidade. Depois de passar pelos cem dias, nós estamos sobre a corcunda. Pois o começo é a parte mais intimidadora e perigosa da jornada, onde as maiorias das pessoas se desencorajam e desistem dos estudos.

Durante a transição de um médico interno geral, que pratica medicina geral, para um médico da casa (também conhecido como residente ou “dente” abreviando) que é novamente considerado um estudante, sendo uma grande mudança.

Tudo sobre o trabalho muda; carga de trabalho mais pesada, atendimento mais rigoroso ao paciente, e casos mais complicados. Ainda por cima, tem uma tonelada de obrigações acadêmicas tipo ir a palestras, escrever revisões sobre os assuntos, e participar de conferência de casos no departamento, fora do departamento, longe do hospital ou em outra província. E às vezes nós temos conferencias de casos internacionais. Eu suspeito que teremos conferência com outros planetas também se isso for possível um dia. Isso é tipo um combo de comida extra-grande, maior e mais saboroso do que você encontraria em qualquer outra franquia de fastfood.

A carga de trabalho aumenta dramaticamente, considerando que os salários diminuem. Como um comércio, para que o médico da casa possa ter sua educação sem precisar ter que pagar por uma mensalidade, o hospital nos paga um salário menor. O pagamento para as obrigações de rotação são ainda menores, enquanto as obrigações são ainda mais trabalhosas e agitadas.

Então é comum para os residentes se sentirem chocados como um peixe que troca de água de repente, decidir sair do treinamento de especialidade e voltar a serem generalistas. Alguns deles começam a fazer pequenos cursos e abrem uma clínica de estética, enquanto outros ficam tão chocados que desistem de ser médico e adotam outra profissão.

Portanto, depois de cem dias, a faculdade e o hospital farão uma festa de boas vindas, como se estivessem nos cumprimentando com um tapinha nas costas por termos durado os três meses e para nos encorajar a completar a graduação até sermos especialistas de pleno direito.

Então se fosse uma festa só com uma comemoração… não seria digno.

Por isso nos participamos do GotTalent também.

Todas as divisões e departamentos devem apresentar uma performance no palco desde os residentes do primeiro ano que completaram cem dias (e também estão exaustos e precisando de um descanso). Eles precisam produzir uma performance impactante e competir um contra o outro no palco. Os vencedores serão premiados com coisas como equipamentos necessários para mobiliar e melhorar a qualidade da sala de descanso na ala.

Normalmente, os vencedores ganham uma Tv de tela enorme, um refrigerador, um beliche, uma máquina de lavar e secar, uma panela de arroz elétrica, uma panela elétrica, um console de jogos (eu ouvi que tem um PS4 Pro esse ano). Os prêmios de consolação são geralmente cinco caixas de macarrão instantâneo, ovos frescos, arroz moído não cozido, sardinha enlatada e comida desidratada. (Puts, isso é para sala de descanso dos médicos ou doações para vítimas de desastres?) Às vezes eles colocam alguns snacks, para garantir que os residentes não vão morrer de fome enquanto estão de plantão e não há tempo para fazer uma pausa.

Nós da tribo, digo… Nós médicos do departamento continuamos ganhando todo ano, macarrão instantâneo e ovos. Eu até entendo a chefe Nok, não é uma questão de comida e sobrevivência, mas sim de dignidade. Além do mais, nossa geladeira da sala de descanso não está mais refrigerando tão bem, e às vezes cheira estranho.

Vamos lá! Se esse ano nós não ganharmos uma Tv ou um vídeo game, nós temos que ganhar pelo menos uma geladeira.

O problema é… eu tenho que produzir a performance.

E tenho que liderar.

Que diabos eu vou fazer?

Oh, hmm… na verdade, eu já estive em uma situação parecida anteriormente.

……….

“Heeeyyyyy! Not, espera!”

Sem ar, eu segui Not que estava saindo do salão onde acontecia o primeiro encontro de apoio aos estudantes de medicina.

“Como vai, Tawan?”

“É… vou bem, nós calouros temos que fazer uma performance para se apresentar na festa de boas vindas aos calouros.”

Eu respondi ainda ofegante. Tradicionalmente, para concluir as atividades do encontro de apoio, os calouros devem fazer uma apresentação para os outros estudantes do segundo ao sexto ano como um símbolo de gratidão por terem nos acolhido. Eles então nos receberão “embaixo de suas asas”, formando grupos sortidos chamados “linha de mentoria”, e nos dão presentes de boas vindas. Alguns ainda dizem se irão nos ajudar, dependendo do quão boa é a nossa apresentação. Pior ainda, há rumores que dizem que alguns calouros não ficaram em nenhuma linha de monitoria porque os sêniores acharam a apresentação horrível.

“Eu já sei disso. O que tem?”

Para Not foi fácil, ele não caiu nessa bagunça. Ele foi eleito como cheerleader pela faculdade de medicina, então ele não precisava participar das apresentações de calouros. Ele não era obrigado.

“Sabe… eles me escolheram como líder disso, para produzir a apresentação.”

E por que diabos essa grande responsabilidade foi cair no meu colo? Deixe-me explicar rapidamente, quando eu entrei para a Faculdade de Medicina, minha pontuação em língua Tailandesa era a melhor do ranking em todo o país naquele ano. Muitos dos meus colegas sabiam disso e eles acharam automaticamente que eu também era hábil em léxico e literatura, talvez? Então eles deixaram sob minha responsabilidade a parte de roteiro e produção.

“Sim, e eu repito, o que é que tem Tawan?”

Not ainda não tinha percebido meu problema.

“Eu não sei o que fazer?”

“O quê? E como eles te escolheram como líder?”

“E eu vou saber? Ah não. Pobre de mim! Eu tenho que apresentar a ideia em breve. E ainda tem um questionário de química orgânica pra amanhã, eu preciso voltar correndo para fazer uma revisão. O que eu vou fazer Not? O que eu faço? Eu vim pra cá preparado para estudar só. Eu não estou preparado para fazer uma apresentação artística.”

“Bom… e se eu te ajudar com isso?”

Not sugeriu casualmente. Mas isso pareceu tão casual quanto me pedir para sentar e esperar enquanto ele foi à cantina comprar uma refeição para mim, como se não fosse uma grande coisa, como se fosse nada.

“Ehhh!? Isso é certo?”

Honestamente, eu o segui porque pensei que ele pudesse me ajudar.

“Eu costumava a produzir peças de teatro enquanto estava no ensino médio. É mamão com açúcar.” Seu sorriso me acalmou um pouco, porém… “Mas você tem que pegar o papel principal.”

Oh, pobre de mim!… Eu sabia.

……………..

O flashback do primeiro ano inundou meus pensamentos depois de eu terminar o plantão na enfermaria.

Naquela época, nos demos bem na apresentação. Não graças a mim, e sim ao Not. Ele disse que os veteranos dos quarto, quinto e sexto anos eram os jurados mais importantes. E até onde ele sabia muitos deles eram garotas fãs de Yaoi. Portanto, ele disse para produzirmos uma peça sobre Jacinto, pois tem tudo a ver e iria nos favorecer sem questionamentos.

Claro que eu tive que fazer o papel do Jacinto, enquanto Not foi o Hades e outros dois amigos gatos fizeram o papel de Apolo e Zéfiro. Como esperado, os veteranos do quarto, quinto e sexto ano gritaram com toda força no auditório. Especialmente quando Apolo estava todo carinhoso com Jacinto e quando Jacinto morreu nos braços de Apolo.

Oh… ou talvez eu deveria pedir a ajuda de Not novamente para me ajudar a organizar a festa de cem dias?

Mas agora as circunstâncias mudaram. Naquela época, ele era o Not. Agora ele é Nadia, que também é médico do Departamento de Pediatria. Enquanto eu sou do Departamento de Medicina Interna. Simplificando, nos somos adversários nesse contexto. Por que ele se esforçaria para me ajudar?

Mas não vou saber se não tentar… Certo?

Ao meio-dia e meia, eu cruzo meus dedos e chamo Not – ops- Nadia, esperando que ele esteja livre para que eu possa convidar ele para almoçar e implorar para me ajudar no meio da refeição.

O telefone toca algumas vezes antes de Nadia atender.

“E aí, Tawan?”

“Você está livre? Vamos sair para almoçar.”

“Ah claro, eu tenho um intervalo agora. Vejo você no elevador do lobby no primeiro andar.”

Em quinze minutos, a mesa da cantina que nós escolhemos já esta cheia de comida. Era de se esperar, nós estávamos famintos. Normalmente nós não tomamos um café da manhã como eu disse, só um café. Nessas horas nossos estômagos já estão cantando uma musica eletrônica. Às vezes a quantidade de comida que nós pedimos depende da complexidade da “música” tocada. Não é muito racional, eu sei. E eu sinceramente acredito que nós não conseguiremos terminar a quantidade de pratos que pedimos. Mas tudo bem, eles já estão aqui.

“O que o seu departamento vai apresentar na festa de cem dias?”

Como pode perceber, Nadia entrou no assunto sem precisar de nenhum empurrão meu.

“Eu ainda não sei… o problema é que eu tenho que desenvolver.”

Eu alcanço minha colher no traseiro do frango no prato de frango grelhado e pego, pois sei que Nadia não come essa parte enquanto eu amo. Toda vez que vamos fazer uma refeição escolhemos arroz glutinoso, frango grelhado, salada de papaya, e eu sou o único que como o traseiro de frango. Nadia costuma dizer que nós fomos destinados a sermos melhores amigos por causa da teoria do traseiro de frango – nós não brigamos por isso, ou por comida.

“Aha, você já tem alguma ideia?”

“Não tenho nenhuma ideia… você pode me ajudar?”

“Claro, mas vai ter que ser a noite. Eu vou trocar uma ideia com você.”

“Huh. Verdade? E o seu departamento?”

“Yeahhh, tem uma lá que se acha tipo a Regina George de Meninas Malvadas. Ela quer ficar no comando e gosta muito de mandar. E eu tipo, eu tenho preguiça dessas coisas. Então deixa ela, deixa ela liderar. Foi bom você ter perguntado. Eu prefiro ajudar o Departamento Interno de medicina. Vamos ganhar do meu departamento.” Eu pego com a colher pedaços de caranguejo do prato de caranguejo e salada  de papaya e coloco no prato do Nadia. Ele ama esses caranguejos em conserva. Eu também gosto, mas como Nadia me deixou pegar o traseiro de frango, eu deixo ele pegar o caranguejo.

“Que sorte! Você não precisa ajudar seu departamento, e agora eu posso te recrutar para o meu lado. Que coincidência!”

“Não é coincidência. Eu acho que o universo organizou isso. Cada um de nós somos bem cuidados pelo universo. Se nós não servimos para alguma coisa, nós somos para outra. Eu não preciso ajudar meu departamento com a apresentação porque o universo sabia que você iria precisar da minha ajuda.”

Eu sorrio…. “Obrigado, Not – oops- Nadia.”

Ele rosna para mim. “Tudo bem errar, mas não tão frequente. Eu te disse que o nome Not não é auspicioso, eu não vou arrumar um homem. Se lembre. Eu. Sou. Nadia.”

Eu rio. “Okayyyyy, Nadia.”

E igual ao traseiro de frango que eu como e ele não.

Como os caranguejos em conserva que eu gosto, mas ele gosta ainda mais.

Então eu deixo ele ficar com o caranguejo, porque eu já estou mastigando o traseiro de frango.

Nós dois, todos nós, estamos sendo cuidados pelo universo.

Se não por uma coisa, então para outra. O universo vai achar um jeito para nós.

Como quando eu me tornei amigo do Nadia.

Oh certo… eu esqueci.

Essa noite, eu terei que ficar para discutir com Nadia sobre a peça.

Então eu terei que encontrar o meu amor um pouco mais tarde…

É melhor eu ligar e avisar ele.

…………………………….

Notas de Rodapé

Tawanork: pronuncia-se “Ta-Wan-Ork”, é a forma completa do primeiro nome de Tawan. O nome “Tawan” significa sol, enquanto “ork” significa surgir. Tawanork significa literalmente “nascer do sol” que se refere ao “Leste”.

Daonuea: Pronuncia-se Dao-Nuea significa estrela do norte.

Linha: Uma equipe. Também significa uma zona específica da enfermaria. Com um grande número de leitos (pacientes) em cada ala, os médicos são divididos em pequenos grupos que podem ter estudantes de vários anos diferentes. Cada equipe pega a responsabilidade de pacientes e casos que são atribuídos a sua linha, com um chefe de enfermaria observando todas as linhas. Isso serve para organizar e melhorar o rigor e a eficiência de cuidados ao paciente bem como uma maior facilidade de administração, ao invés de todos focarem em todos os casos.

Likay: Pronuncia-se Li-kay, uma forma de teatro musical folclórico tailandês.

Encontro de apoio: também conhecido como Atividade dos Calouros, é um grupo de atividades onde os estudantes do primeiro ano se juntam para realizar vários projetos em um período de tempo, a maioria é atlético e recreativo, sob supervisão e com a ajuda de seniores de vários anos diferentes.